Viagem sem fim*

Paisagem

Quase todos já desejamos viajar em uma estrada sem fim, sob um céu azul que toca o horizonte lá na frente, ouvindo uma boa música e olhando para os lados para apreciar a paisagem. Mas ela passa sempre borrada, o que nos impele a só olhar adiante, a só desejar o porvir e a não ver o que está ao lado.

No dia a dia nós viajamos sobre o fio da navalha que é o cotidiano. E viajamos com uma naturalidade que, vista de fora, é espantosa. Como temos a capacidade de caminhar com tanta perícia sobre uma superfície tão fina, cortante e perigosa como um fio de navalha?

Talvez por isso desejamos viajar sempre em nossa estrada sem fim, tentando olhar a paisagem borrada. E essa viagem nos leva para frente, para o horizonte que se confunde com o céu. Assim passamos os dias, curvados sob o peso opressivo do cotidiano e, em alguns momentos, nos alegrando com as infinitas possibilidades que trazem os devaneios da viagem na estrada sem fim.

Enquanto avançamos sobre o caminho fino como o fio da navalha que é a realidade, alguma coisa nos impele a viajar pela estrada sem fim do sonho, em direção a um céu azul profundo mas com a paisagem sempre borrada, bem do nosso lado. Como deveríamos ter a capacidade de congelar essa paisagem borrada, como numa fotografia em alta velocidade!

O objetivo maior de quem fotografa o espaço em que vive, esse vasto ateliê de fotógrafo que é o mundo, é congelar a paisagem para permitir ao olhar um instante de perplexidade, de maravilhamento ou de horror. Um instante em que nos desviemos dos devaneios e sonhos com o futuro e enxerguemos, para o bem ou para o mal, o exato momento em que vivemos.