"About photography and something more". 

 

Boiadeiro do Cerrado*

Neném Prado, meu amigo, um dos últimos comissários de boiadas do Cerrado, nos deixou.

Cavalgamos juntos nas paisagens do Planalto Central em diversas viagens tangendo boiadas pelos sertões, nos primeiros anos de minha vida em Goiás. Eu, moço de cidade, tentando me equilibrar no lombo dos burros mansos que ele me disponibilizava, ouvindo atento suas histórias e lições sobre a vida sertaneja, absorvendo os regionalismos da sua fala e de seus companheiros de trabalho. Ficava poucos dias acompanhando a tropa, três ou quatro marchas no máximo. Depois me despedia, voltava para o conforto da capital e eles seguiam seu destino, para a entrega do gado em 100 ou mais dias de estradas boiadeiras, pelos caminhos de Goiás, de Minas Gerais, de São Paulo, do Mato Grosso e até do Paraná.

Com ele aprendi algumas manhas da lida com o gado, dormi nas redes ao relento na companhia da comitiva, tomei café da manhã, almocei e jantei ao lado da boiada fechada em currais de cordas. Das lições de vida que já tive, essa foi a experiência que mais me marcou. Foi um início gratificante na minha jornada goiana.

Convivemos muitos anos, numa amizade que perdurou até agora na presença física e que será perene nas minhas melhores lembranças de vida. Sua honestidade, conduta ética, seus princípios, a simplicidade e a qualidade de homem sertanejo que gostava de ler John Steinbeck e Gabriel Garcia Márquez enquanto acompanhava o manso tanger do gado a passo do burro, estarão comigo para sempre.

“... na convivência com Neném aprendi muito desse mundo cheio de contradições que é Goiás: depositário de antigas tradições, cunhado por uma gente reservada, amiga, pioneira e bravia, formadora do interior do Brasil e, ao mesmo tempo, pilar do desenvolvimento e da modernidade do Centro-Oeste. Foi ele o condutor do meu ritual de entrada nesse mundo antigo, que a cada dia desaparece mais um pouquinho” (do livro Memórias: Boiadeiros do Cerrado).

R.I.P., Neném Prado.

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10/07/2020

A Nascente número 1*

Um pequeno círculo de areia branca dentro de uma mata ciliar, com dezenas de pontos de água cristalina borbulhando, saindo do subsolo: era a nascente número 1 do Rio Araguaia, o local mais emocionante, pelo caráter afetivo, que fotografei para o livro “Águas no Cerrado”. Conhecida como Nascente Número 1, por ser a mais a montante do grande Rio Araguaia, símbolo de Goiás e de Mato Grosso, amado e vivenciado intensamente pelo povo goiano, tem o acesso hoje restrito pelo proprietário das terras onde se localiza justamente para evitar o pisoteio pelo gado e o acesso indiscriminado, minimizando assim os riscos para sua sobrevivência.

Cheguei lá com a companhia e orientação do guia Joel e do funcionário da propriedade, Vilmar, que nos orientou nos caminhos difíceis da região das Nascentes do Araguaia, permanentemente ameaçadas pela lavoura que hoje as circundam.

Foi quase um dia inteiro de trabalho, quando aproveitei para fotografar a voçoroca Chitolina, uma das maiores do Brasil, justamente abaixo das nascentes principais, hoje controlada. E ainda tive o bônus de fotografar uma Anta nas estradas entre as lavouras de cana-de-açúcar, praticamente a meia luz, utilizando ao máximo o ISO (parâmetro da câmera, que controla a sensibilidade à luz) disponível para ter um resultado pelo menos satisfatório.

Localizada nos limites do Parque Nacional das Emas, a região das Nascentes do Araguaia hoje é amplamente ocupada pelas lavouras de “commodities” mas ainda tem áreas de vegetação nativa conservadas. Onças-pintadas são mais comuns na região do que dentro dos limites do Parque e isso tem uma explicação: os herbívoros (veados e antas, por exemplo) precisam de sal para o metabolismo. Dentro dos atuais limites do Parque não existem barrancos de rios, fonte natural do sódio. Então eles atravessam o asfalto da GO-341 (onde se expõe a atropelamentos frequentes) em busca dos barrancos fartamente encontrados na região das Nascentes. E os grandes felinos vão atrás deles, que são a parte principal da sua alimentação.

Toda a região das Nascentes era parte integrante da área original do Parque Nacional das Emas. Sua exclusão da área protegida, na década de 1970, para benefício da exploração comercial, alterou de maneira marcante o comportamento das espécies silvestres.

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12/03/2020

 

A chuva*

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No asfalto que leva ao Parque das Emas a partir da cidade de Mineiros, cumulus no horizonte anunciavam que não ia ser fácil, que as trilhas estariam enlameadas, que a chuva poderia castigar o carro, o equipamento e que sustos iriam surgir no caminho, através do imenso Cerrado. Mas era o tempo que eu tinha para ir ao Parque fotografar e filmar, então seguimos em frente, eu e meu carro, eu e minhas ferramentas de trabalho, sempre com as nuvens cumulus ameaçadoras sobre o asfalto e sobre o sentimento de solidão.

A chuva sempre me trouxe emoções mistas de alegria e de apreensão. Como um deus pagão que pode premiar ou castigar, ela e o vento exercem um fascínio sobre mim que ainda não consegui explicar e nem transformar em palavras. Mas tento: nada há tão leve quanto um dia claro de céu azul e uma brisa confortante no rosto, assim como o som da água batendo no solo e o cheiro de terra molhada de uma chuva firme e constante. E nada há de tão assustador quanto estar sozinho em uma imensidão de terra primitiva e se ver sob uma ventania furiosa, rodeado de trovões e relâmpagos, com o dia se transformando em noite precoce e onde o abrigo das árvores se transforma em armadilha e a curva à frente na trilha pode conter surpresas desagradáveis.

Pois entrei no Parque, tive tempo de preparar câmeras e lentes com suas parafernálias e segui pela trilha ainda sem chuva e com pouco vento, mas com o céu ameaçando desabar em água a qualquer momento. Rodei quase 50 km pela trilha, observando ao longe as grandes precipitações de água e fotografando, apesar de uma chuva teimosa e fina que ia e que vinha, a toda parada me obrigando a correr para o carro para me proteger da água que insistia em molhar meu rosto, minhas roupas, câmeras e lentes. E foi na volta, pela mesma trilha, que o céu desabou em água.

Foram os mesmos 50km de chuva torrencial, grandes poças d’água escorregadias e pegajosas que se formaram rapidamente na trilha e que me fizeram ficar com os músculos das costas retesados pela permanente luta para manter o controle do carro e evitar uma derrapagem, um atolamento e a consequência de ficar preso, sozinho, no meio do nada.

Mas houve uma breve trégua no temporal que me permitiu parar um pouco para pegar fôlego e descobrir, bem ao meu lado, as mimosas do campo cheias de pingos d’água, resistentes e resilientes, lindas na sua simplicidade, talvez conscientes de que seu conjunto ajude a formar uma das mais belas paisagens dos campos limpos do Cerrado.

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Fotografei-as de dentro do carro. E saí de lá com a certeza renovada de que sempre vale a pena.

 29/01/2020

No lugar certo*

Quando a vida nos reserva gratas surpresas, são os momentos únicos que elas proporcionam que ficam gravados para sempre em nossa memória. Há 6 anos, em um agosto seco como sempre são os agostos no Centro-Oeste, andava eu, como de hábito, fotografando no Parque das Emas quando reencontrei uma amiga de infância que eu não via há 30 anos... Esposa de um fotógrafo já famoso, moradores do distante Rio de Janeiro, estavam no Parque no mesmo dia em que eu estava.

Convivemos na mesma cidade, no mesmo bairro, na mesma rua durante nossas infâncias. Mais, fomos vizinhos de casas. Lembro dela e das irmãs e irmão como se ainda hoje os visse nos domingos do subúrbio carioca, todos reunidos em frente as casas dos amigos, com aquela alegria que a infância e a juventude se alimentam, nos preparando para todas as experiências, boas ou más, que a vida nos trás. Eu, mais velho, segui meu caminho, fiz minha vida e vim embora para Goiás. Ela seguiu o seu e continuou vivendo no Rio de Janeiro. Formamos famílias e, por grande coincidência, ela casou-se com um fotógrafo que, como eu, é apaixonado pela fotografia de natureza, pelo Cerrado e Pantanal e, sempre que pode, aparece no Parque das Emas.

Pois naquele agosto de 6 anos atrás, nos encontramos em um pequeno espaço dentro do Parque, como se todo o território de Goiás e do imenso Brasil tivesse reservado a feliz sorte de nos revermos em um lugar tão especial para mim. Nos abraçamos, nossos olhos se encheram de lágrimas e a alegria ficou selada no meu peito. Que grande momento!

Foi um agosto muito seco, mas de um azul intenso no céu e com os Ipês amarelos e as Caraíbas ainda em grandes floradas, marcando o Cerrado com um contraste belo e poético entre o azul e o amarelo. Dentre as muitas fotos que fiz naquele agosto no Parque das Emas, essa é a lembrança da infância, da juventude, do valor da amizade, da alegria do reencontro.

 

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 E é a certeza de que o Cerrado é o meu lar, onde encontro, sempre, a beleza e a emoção de estar no lugar certo, no momento certo e no trabalho certo.

04/09/2019 

Carnaval e terror, ô tempo bom...*


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Sempre que me pego lembrando da infância é inevitável a associação com o carnaval. Fui criado nos subúrbios do Rio e o carnaval de rua está entre minhas melhores lembranças. E eu aproveitei muito bem, quando ainda não existia Sambódromo, não existia TV filmando tudo 24 horas, não existia o luxo e a ostentação nas Escolas de Samba e o que existia era um carnaval cru, no asfalto, apaixonante, solto e cheio de criatividade popular. Eram meados da década de 1960 e todo mundo se fantasiava de tudo: morcego, diabo-rei, caveira e tantas outras. Mas o terror da meninada mesmo era o Clóvis...

Saíamos de manhã cedo para a rua, sempre reservando uma rota rumo ao portão de casa para uma fuga estratégica. Sim, porque os Clóvis andavam em bandos, com fantasias folgadas, cheias de cores, máscaras aterrorizantes e nas mãos um pedaço de pau com um barbante e na ponta uma bexiga de boi inflada e secada ao sol, usada para bater em todo mundo que passasse pela frente: homens, mulheres e, principalmente, crianças. Quanto maior o bando de Clóvis, maior o barulho que faziam batendo com as bexigas no chão e maior o medo e o suor frio esperando eles se aproximarem. Mas não ficávamos paralisados, antes preparávamos uma tática de guerrilhas para colocar em prática no momento do confronto: grupos de meninos e meninas ficavam espalhados pelos cantos das ruas, fora ou dentro dos muros das casas, nas calçadas e os mais ousados, no meio da rua. E toca a provocar os Clóvis com gritarias, ofensas inocentes, esperando o ataque. E este não tardava. O bando avançava com fúria, se espalhava batendo com força as bexigas nas costas dos que já corriam (e doía, como doía), gritando um mantra que jamais esqueci: “Eia, parente!”.

Puro terror, pura diversão. O coração ficava a mil, a corrida acelerada para a proteção do muro de casa, a adrenalina correndo solta, por vezes uma urina incontrolável escorrendo pelo calção, tamanho o medo.

Em 1983, já adulto, fotografei um pequeno bando que ainda circulava pelos subúrbios. E eles ainda tinham a mesma aparência, usavam as mesmas fantasias e as mesmas bexigas de boi secadas ao sol. Mas estavam desaparecendo. As bexigas foram mudando para serem de borracha, as fantasias foram ficando chiques... Hoje vejo em matérias atuais que os Clóvis renasceram, que ainda existem por lá. Só que vi as fotos dos Clóvis do presente e não encontrei nenhum que se aproximasse dos que vivenciei.

Achei essa foto, única, no filme cromo de 83. Para mim, ainda parecem de arrepiar.

16/11/2018