"Sobre fotografia, com mais ou menos poesia".

 

Livros…

Projeto Cerrado em curso: livro "Parque das Emas, no coração do Cerrado" pronto para impressão, um trabalhão danado como toda produção de livro tem que ser. Bilingüe, 188 páginas, 101 fotos. Ficou bonito e, depois de impresso, com certeza ficará mais ainda.
Livro "Águas do Cerrado" com produção em andamento: serão seis meses de trabalho de campo – um já feito – mais pesquisa, texto, edição de fotografias etc.

Paisagem

Lago azul, uma das nascentes do Rio Araguaia, Mineiros,GO

Agradecimentos aos apoiadores e agenciadores (eles sabem quem são), porque sem eles nada seria concretizado.

Sob o céu do Araguaia

Rio Araguaia, março de 2017, nas imediações de Aruanã, Goiás.

Uma tormenta se anunciava, mas no horizonte uma faixa de luz resistia ao avanço da cumulus.
Apesar dos mosquitos, da noite pouco dormida para acordar cedo, dos pingos iniciais da chuva, da aparente monotonia da paisagem de água e margens verdes, lá estava o quadro fantástico.
São estes momentos que fazem a gente sentir que vale a pena ser fotógrafo.

Sob o céu do Araguaia

Roland Barthes e a fotografia: o amor e a loucura

Ordem do dia de Bonaparte (Napoleão), Primeiro Cônsul, a sua guarda:

“O granadeiro Gobain suicidou-se por amor: era aliás um excelente sujeito. É o segundo acontecimento dessa natureza que acontece à companhia desde um mês. O Primeiro Cônsul ordena que seja posto na ordem da guarda: que um soldado deve vencer a dor e a melancolia das paixões; que há tanta coragem verdadeira em sofrer com constância as penas da alma, quanto em ficar firme sob a metralha de uma bateria …”

… Perspicácia de Bonaparte, assimilando o amor a uma batalha, não – trivialmente – porque dois parceiros aí se enfrentam, mas porque, cortante como uma metralha, a rajada amorosa provoca ensurdecimento e medo: crise, revulsão do corpo, loucura: aquele que se apaixona à moda romântica conhece a experiência da loucura …

O título e o texto acima foram extraídos de “Roland Barthes por Roland Barthes”, publicado no Brasil pela Editora Estação Liberdade. Barthes, filósofo, sociólogo e escritor francês, escreveu sobre a fotografia: é também autor de “A câmara clara”, onde abre o livro, mais uma vez, falando sobre Napoleão – e a fotografia:

Um dia, há muito tempo, dei com uma fotografia do último irmão de Napoleão, Jerônimo (1852). Eu me disse então, com um espanto que jamais pude reduzir: vejo os olhos que viram o Imperador! Vez ou outra eu falava desse espanto, mas como ninguém parecia compartilhá-lo, nem mesmo compreendê-lo (a vida é, assim, feita a golpes de pequenas solidões), eu o esqueci.

Aqui compreendida, a paixão de Barthes pela fotografia é aquela mesma que nos move: estes textos, com a tênue conexão do mesmo personagem – Napoleão – ajudaram a mim na compreensão do significado da fotografia, sua arte e sua magia, sua ligação com a palavra escrita, sua capacidade de reproduzir ao infinito o que só ocorreu uma vez – ali, no maravilhamento do autor com a descoberta do olhar que “viu o Imperador”; acolá, na reprodução simplesmente escrita da magnífica Ordem do dia de Napoleão, tão magnífica que parece formar uma imagem na nossa imaginação.

Ainda bem que temos esse contraponto às superficialidades, ao consumo rápido e sem reflexão, ao instrumentalismo que reduz o saber à técnica, algo como “uma boa imagem diz por si só”. Fotografia não é só a imagem. Fotografia é a emoção, é o contato com a realidade. Pode ser amor e pode ser loucura.

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A loucura – Mineiros, GO


Uma boa imagem pode dizer muito por si só, mas não tudo. Uma boa imagem é mais do que isso: sua capacidade de nos emocionar é um convite à reflexão, ao questionamento, à criação. É um caminho para o conhecimento.

As margaridas do campo

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Tão comuns e tão belas, as margaridas do campo ocupam os espaços vazios do cerrado e de outros campos de nosso país, com suas cores múltiplas, seus amarelos, vermelhos, roxos, azuis e tantas outras. As margaridas do campo são pequeninas na sua individualidade e imensas no seu conjunto.

Em minha modesta opinião, um jardim selvagem de margaridas do campo tem muito mais beleza do que um jardim doméstico, projetado, plantado e cultivado em um magnífico quintal gramado. Pois este é fruto do planejamento, da organização, do poder do desejo sobre o natural. E aquele é fruto do poder da natureza sobre o poder do desejo, do poder da vida sobre o poder pelo poder.

Quantas vezes um quintal cheio de flores silvestres, grassado de plantas daninhas e flores selvagens, tem o dom de encantar, com seu silêncio primitivo, nossos olhos cansados do cotidiano? Quantas vezes um quintal de subúrbio ou de uma fazenda em um mundo cada vez mais distante nos lembra que a vida não é só a vida que vivemos? Que a vida é muito mais do que a correria do cotidiano, muito mais do que os parques urbanizados, podados, cortados, desenhados, cuidados e superficializados que nossos olhos alcançam todos os dias? Que a vida pode estar em um canto mal cuidado do universo, abandonado à própria sorte e, no entanto, cheio do viço e do vigor das seivas, caules, capins, flores sem regras, sem ordenamento, sem planejamento?

Então, aqui uma homenagem a todos os quintais, todos os recantos, todos os matos, todos os lugares onde as ervas, daninhas ou não, floridas ou não, com seus espantos e espaços preenchidos com os verdes de múltiplos tons do mundo natural, ainda resistem, persistem e existem.

O Parque das Emas, a caça e o dilema das Unidades de Conservação


As duas imagens abaixo foram feitas no entorno do Parque Nacional das Emas: a do Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), atropelado em julho de 2015, na rodovia GO-341, próximo à portaria do Jacuba, noroeste do Parque; e a da Anta (Tapirus terrestris), morta a tiros em maio de 2016, no Córrego do Ranchinho, Reserva do Tamanduá, em Chapadão do Céu, distante apenas 1 km da cerca sul do Parque e da portaria do Bandeira.

Lobo guará morto

Há entre as duas uma diferença importante: o Lobo-guará é uma vítima habitual nas rodovias que cortam seu habitat natural. Pressionados pela ocupação humana no entorno das unidades de conservação e mesmo longe delas, os bichos cruzam constantemente o asfalto perigoso e milhares morrem atropelados. Falta de fiscalização rigorosa dos órgãos competentes – Polícia Rodoviária Federal ou Polícia Militar Rodoviária Estadual – da velocidade nas rodovias do seu entorno.

Anta morta no rio

Já a morte da Anta a tiros representa uma renovada ameaça à fauna, principalmente próximo às Unidades de Conservação. Renovada porque o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) autorizou há alguns anos o abate do Javali, espécie invasora, agressiva e territorialista, que vem causando prejuízos significativos às lavouras e se reproduz vigorosamente. Com essa autorização, proliferaram os caçadores armados com todo o tipo de armas de fogo que, além de não respeitarem a regulamentação da caça – cadastrar-se no Ibama, ter o registro de sua arma regularizado junto à Polícia Federal etc – atiram em veados, tatus, queixadas, catetos e todo o tipo de fauna que cruza seu caminho. Certos da impunidade, gerada pela mais absoluta falta de fiscalização por parte do Ibama e das polícias locais, a atividade de caça expandiu-se em níveis alarmantes. É comum, hoje, principalmente no entorno e algumas vezes dentro do Parque das Emas, caçadores irresponsáveis abaterem a tiros exemplares preservados por lei, como a anta do Córrego do Ranchinho, sem nada que os gestores locais do Parque possam fazer, pela permanente escassez de recursos.

A curto prazo, talvez a solução seja a revogação da autorização de caça ao Javali, enquanto os técnicos do Ibama, conjuntamente com a comunidade afetada pela perda econômica nas lavouras pela atividade do animal, pensam em outra maneira de limitar suas ações. Esterilização das fêmeas seria um bom caminho, atraindo os bandos para cercados construídos próximos às suas atividades e alimentado-os com milho injetado por esterilizantes, por exemplo.

A continuar como está, brevemente só teremos a lamentar a perda significativa de exemplares emblemáticos da fauna brasileira, sem uma mínima chance de recuperação.