Boiadeiros

Essa série de fotografias documentais, produzidas entre o 2° semestre de 1989 e o 1° semestre de 1990, tem a pretensão de ajudar a divulgar e preservar a memória das boiadas e boiadeiros, personagens dos sertões do Brasil central, hoje rarefeitos.

As fotografias desta página e o texto a seguir são extraídos do livro Memórias: Boiadeiros do Cerrado, publicado em 2010: 

"As rodovias e o transporte por caminhões empurraram esse personagem para o passado, deixando apenas a nostalgia de tempos outros em que homens, bois, mulas e cavalos interagiam com a natureza exuberante, enfrentando dificuldades às vezes indizíveis, fazendo viagens que não raro ultrapassavam cem dias, tangendo uma boiada de mil reses, desde o coração do planalto central até o norte do Paraná, passando pelo triângulo mineiro, por São Paulo e Mato Grosso do Sul.

Tive o privilégio de conviver com alguns desses homens e viajar com eles, montado em lombo de burro, por poucos mas marcantes dias. E a felicidade de conhecer bem de perto pessoas como Neném - Leonaldo Prado – filho de boiadeiro, comissário de boiada, que ainda é, hoje já afastado das boiadas, um ser humano de extraordinária grandeza.

Minhas lembranças são dos ermos, dos grandes espaços, das veredas e de longínquas paisagens, onde, montaria a passo e o gado preguiçosamente pastando e caminhando, ia proseando, sob a chuva da estação das águas ou sob a poeira levantada pelo gado na estação da seca, ora com o ponteiro, berrante a tiracolo, ora com os premereiros, ora com os chaveieiros, e, ora ficando para trás no estirão da boiada, com o culateiro, sempre satisfazendo minha curiosidade em ouvir os casos daquelas vidas sertanejas, simples e duras.

O pouso, onde a comitiva se arranchava, as conversas em volta da fogueira no rés do chão, as histórias de assombração, sacis, lobisomens, mulas sem cabeça, mas também de amores fortuitos, de sonhos, de projetos de vida, contadas com a sinceridade e a pureza do boiadeiro, no meio das noites do sertão, invocavam fantasmas que até eu via, deitado na minha rede armada entre duas árvores na beira de uma estrada de terra ou no curral de uma velha sede de fazenda, que nos cedia um canto para o descanso da jornada diária.

Carício, seu Álvaro, Vandes, Antonio, Jaci, Ditinho e tantos outros, peões de boiadeiro, personagens de um Brasil que não existe mais, são inesquecíveis para mim. São inesquecíveis o rigor e a seriedade com que levavam a cabo suas funções. São inesquecíveis o apuro com que arriavam suas montarias, enfeitando-as com argolas e os mais variados adornos de couro e metal. São inesquecíveis a vaidade e o orgulho de pertencerem a um tipo tão especial de homens."

Expressões regionais usadas nos textos:
- Comissário da boiada: responsável pelo transporte da boiada, da apanha na origem, até a entrega no destino. Em geral, possuía tropa própria (mulas, burros, égua madrinha)
- Ponteiro: o que vai na frente da boiada, puxando o gado com o berrante
- Premereiros: os que vão nos flancos dianteiros da boiada
- Chaveieiros: os que vão nos flancos traseiros da boiada
- Culateiro: o que vai por último, na culatra, tocando o gado e cuidando para que nenhuma rês se perca
- Comitiva: carroça com os mantimentos, que viaja na dianteira da boiada para preparar as paradas de almoço e jantar
 
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