Resistência

Cinza. Essa é a cor dominante nos campos do Planalto Central entre julho e setembro. Cinza da fumaça das queimadas, da poeira levantada após a terra colhida, do céu azul obliterado pela secura do ar, pelo vento que circula sem a proteção natural das árvores do cerrado, derrubadas para o plantio da cana-de-açúcar que produz álcool combustível, da soja, do milho, do algodão ...

De acordo com Aziz Ab’Sáber, em Os Domínios de Natureza no Brasil – Potencialidades Paisagísticas, “... os domínios dos chapadões recobertos por cerrados e penetrados por florestas-galerias – de diversas composições – constitui-se em um espaço físico ecológico e biótico, de primeira ordem de grandeza, possuindo de 1,7 a 1,9 milhões de quilômetros quadrados de extensão”.

Segundo maior bioma do país, toda essa imensidão de terra e riqueza biológica única encontra-se em franco processo de extinção, ameaçada pela produção agrícola sem controle. Desprotegido pela Constituição Federal de 1988, o bioma Cerrado não foi contemplado como Patrimônio Nacional, ficando indefeso quanto às condições que assegurem a preservação do meio ambiente e do uso dos recursos naturais.

Como conseqüência, as chamadas Savana Arbórea Aberta, Savana Parque e Savana Gramíneo-Lenhosa, típicas de chapadões, praticamente não existem mais. As únicas áreas que sobrevivem precariamente são as florestas de galeria e matas ciliares, que acompanham o curso dos rios e constituem áreas de preservação permanente, e a chamada Savana Arbórea Densa (o cerradão), que normalmente vivifica em regiões de topografia mais acidentada, ainda imunes à tecnologia das máquinas agrícolas. Mesmo assim essas áreas são atacadas pelos carvoeiros, geralmente clandestinos, que devastam os cerradões para fornecimento de lenha a siderúrgicas.

O desrespeito às leis de proteção ambiental e a precária fiscalização fazem com que os 20% de Reserva Legal obrigatórios para qualquer propriedade rural sejam freqüentemente desprezados, tangendo para as rodovias, para os campos lavrados e para os chamados cerradões, espécimes em extinção, sujeitando-as à super-população em pequenos espaços e aos atropelamentos e acidentes nas movimentadas estradas que cortam o Planalto.

Resistência procura ajudar a denunciar o processo avassalador da produção irresponsável e sem controle, fotografando essa trágica destruição. Não se trata de proibir a produção. Não se trata de impedir que as máquinas de plantio e colheita cumpram seu papel, desde que de maneira responsável. Trata-se de exigir o cumprimento da lei da reserva legal, de denunciar o descaso dos constituintes de 88 em relação ao Cerrado e de procurar reverter esse quadro.

As fotografias de Resistência não têm descrição. Elas falam por si.

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