Textos de memória
André Monteiro




Histórico

Amarelo e Azul
O Combate
Margaridas do campo

Fotografando o céu que nos protege
Fotografar e resistir
Qual é o problema?
Cavalcante e a Chapada

Seu Célio

O bêbado e o cachorro

A confraria dos caçulas
A bicicleta aro 22
O dominio do existente
Viagem sem fim

O amor, a loucura
A beleza estava ao lado
A caminho do paraíso

Devo uma para o Aduildo
A velha porteira
Fotografar é uma transação solitária


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Amarelo e Azul

Ipê amarelo do cerrado - Goiânia, GO - Agosto/08

Nem tudo que é torto é errado. Vide as pernas do Garrincha e as árvores do Cerrado (Nikilaus Behr).

Fiz essas fotos em agosto de 2008, época de seca em Goiás, quando a vegetação fica esmaecida e perde o viço do período das chuvas. Mas o azul do céu e o amarelo do Ipê se mostram magníficos, como que para compensar a secura do ar e o calor abafado.

Nada compensa mais o sacrifício do fotógrafo caminhante, que deixa o carro na beira da estrada e se envereda pelos campos, pastos e cruza cercas para chegar perto daquela mancha amarela que se destaca no horizonte, do que ver no resultado de seu trabalho a beleza do cerrado fielmente estampada.

Penso que essas fotografias são o exemplo típico da "imagem que vale mais do que mil palavras". Porque o que retratam é a bela simplicidade da savana brasileira. E espero que valham como poemas que não sei escrever.

Detalhe de Ipê amarelo do cerrado - Goiânia, GO - Agosto/08

Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.


Cora Coralina, parte de O Cântico da Terra

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O combate

Sexta-feira, 13 de janeiro de 2012, fui ao Combate, entre Jataí e Perolandia, em Goiás. Local do mais famoso dos entreveros da Coluna Prestes em sua inédita jornada de 25.000 km durante 2 anos pelo Brasil, de 1925 a 1927, a Invernada foi uma das passagens da coluna por Goiás, cuja marcha não foi superada nem pela histórica Grande Marcha de Mao-Tse Tung na Revolução Chinesa de 1949, que, embora duríssima, não passou de 10.000km e durou 1 ano, de outubro de 1934 a outubro de 1935.

O comando da Coluna, 1925 - Reprodução

A visita, feita a convite do Dr. José Martiniano da Silva para fotografar o sítio histórico, me fez admirar ainda mais o trabalho do historiador, que munido do seu caderno de notas, de sua curiosidade, da paixão pelo passado e pelo interesse em desvendar nossas origens, consegue viver como ninguém a emoção de estar no mesmo lugar em que nossos antepassados estiveram, de mirar a paisagem com o mesmo olhar que eles miraram, de tocar as paredes, os muros, as cercas e os objetos que eles tocaram e de, com isso, procurar entender e transmitir suas motivações, seus sonhos, seus medos, suas lutas e suas conquistas.

Em um dia de muita chuva e na companhia de um historiador do calibre de Dr. Martiniano e de um dos maiores conhecedores da geologia e da flora do bioma Cerrado no Brasil, Binômino Costa Lima, o Meco, mergulhei numa fantástica viagem ao coração do maior conflito armado da Coluna Prestes no Brasil, que se deu em solo goiano.

Do local conhecido como Combate, onde nos dias 29 e 30 de junho de 1925, morreram dezenas de combatentes na luta entre as forças legalistas e os membros da Coluna Prestes, os então chamados "revoltosos", fui à sede da fazenda, onde, ao ver a mesma casa e o mesmo curral vistos por Prestes, Juarez Távora, Siqueira Campos, Djalma Dutra, João Alberto, Cordeiro de Farias, Klinger e tantos outros combatentes anônimos, e pisar o mesmo solo pisado por eles há muitos anos atrás, em um momento tão definidor de nossa república, fiquei com um espanto que jamais poderei reduzir, o mesmo espanto citado por Roland Barthes em seu livro "A câmera clara": "Um dia, há muito tempo, dei com uma fotografia do último irmão de Napoleão, Jerônimo (1852). Eu me disse então, com um espanto que jamais pude reduzir: vejo os olhos que viram o Imperador! Vez ou outra eu falava desse espanto, mas como ninguém parecia compartilhá-lo, nem mesmo compreendê-lo (a vida é, assim, feita a golpes de pequenas solidões), eu o esqueci."

Sede da Fazenda Zeca Lopes, Perolandia, GO - 2012

Não é da minha competência narrar os fatos históricos ali ocorridos, pois cabe ao Dr. Maritiniano essa belíssima tarefa. Mas, munido de minha curiosidade incansável sobre o passado, pude fazer uma comparação entre o que ouvi dos descendentes de Zeca Lopes, até hoje proprietários da fazenda, com os livros que possuo da Coluna - A Coluna Prestes, de Neill Maccaulay (ed. Difel, 1977), brazilianist norte-americano; A Coluna Prestes, Marchas e Combates, de Lourenço Moreira Lima (ed. Alfa-Omega, 1979), o escriba da coluna; e a biografia Prestes, Lutas e Autocríticas, de Denis de Moraes e Francisco Viana (ed. Vozes, 2ª edição, 1982).

E feliz fiquei por encontrar confirmações de quase todas essas histórias, dramas individuais e momentos terríveis: assim foi com a história do cavalo de Prestes, que na saída da Invernada para Caiapônia, empinou no escuro da noite e caiu em um barranco, quase matando seu cavaleiro; com o oficial "revoltoso" encarregado de ir com uma patrulha incendiar a ponte sobre o Rio Claro, entre a atual Perolandia e Jataí, e que, após cumprir sua tarefa, desertou mas ordenou a seus soldados que retornassem ao QG da coluna, na Invernada; com o oficial legalista ou da coluna, que se encontra enterrado no pequeno cemitério nos fundos da sede da fazenda. Também encontrei algumas discordâncias, como a data exata do combate: Macaulay diz que foram dois os combates, um no dia 29 quando as tropas legalistas de Klinger alcançam o destacamento de Djalma Dutra e trocam tiros e outro na madrugada de 29 para 30 de junho, quando uma coluna comandada por Juarez, saindo da sede da fazenda onde estavam acantonados, resolve atacar Klinger no próprio local do combate do dia anterior, e então se dá o grand-finale de uma tragédia, com dezenas de mortos, principalmente entre os "revoltosos". Moreira Lima também fala dos dois dias, acrescentando algumas informações: que os destacamentos de João Alberto e Siqueira Campos aprestaram-se e, saindo da sede da fazenda ainda no dia 29, foram combater Klinger e que no dia 30 o combate continuou furiosamente, mas não cita Juarez. Já os moradores atuais, herdeiros de Zeca Lopes, não citam as duas datas, fixando-se no dia 29 de junho como o "grande" dia, em função da memória oral da família.

O campo da batalha, hoje. Perolandia, GO - 2012

Contrariamente a essa mesma tradição oral, que ora se refere à coluna como revoltosos e ora como comunistas, Prestes, em entrevista aos autores Denis de Moraes e Francisco Viana (em "Prestes, Lutas e Autocríticas"), diz que "Naquela época eu nunca tinha ouvido falar de marxismo, nem de Lênin, muito menos da revolução de outubro de 1917, na Rússia. Era apenas um homem revoltado com a maneira pela qual se governava o país".

Cruzeiro no local do combate - Perolandia, GO - 2012

Pois lá na invernada está o Cruzeiro, erguido em homenagem aos mortos no local do sangrento combate e que hoje, quase oculto pelo cerradão, resiste ao tempo como testemunho e registro da história. E na presença desse cruzeiro lamentei o descaso das autoridades em relação aos nossos sítios históricos, lamentei pelo passado heróico de nossa gente que escorre pelos dedos e que, se não fosse pela determinação dos historiadores, estaria perdido para sempre nas brumas do tempo.

Mas tenho duas sugestões: que a Prefeitura de Perolandia, município onde se encontra o Cruzeiro do combate, coloque ali uma placa comemorativa, limpe o local, faça e mantenha acessos para facilitar as visitas e coloque sinais indicativos de que ali, naquele lugar ermo, muito do que é o Brasil de hoje foi decidido pelas armas pelos homens dos dois lados, que acreditavam estar fazendo o melhor pelo Brasil. E que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN, tombe a sede da Fazenda Zeca Lopes, local sagrado onde pousaram as tropas da coluna e de seus perseguidores e onde idéias e ideais com certeza foram discutidas e levadas a cabo por seus integrantes até a última das consequências.

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As margaridas do campo

Tão comuns e tão belas, as margaridas do campo ocupam os espaços vazios do cerrado e de outros campos desse Brasil infinito, com suas cores múltiplas, seus amarelos, vermelhos, roxos e azuis. As margaridas do campo são como nossas esperanças, multicoloridas e comuns, sonhadoras e pés-no-chão, pequeninas na sua individualidade e imensas no seu conjunto.

Um jardim selvagem de margaridas do campo tem muito mais beleza do que um jardim doméstico, projetado, plantado e cultivado em um magnífico quintal gramado. Pois este é fruto do planejamento, da organização, do poder do desejo sobre o natural. E aquele é fruto do poder da natureza sobre o poder do desejo, do poder da vida sobre o poder pelo poder.

Quantas vezes um quintal cheio de flores silvestres, grassado de plantas daninhas e flores selvagens, tem o dom de encantar, com seu silêncio primitivo, nossos olhos cansados do cotidiano artificializado? Quantas vezes um quintal de subúrbio ou de uma fazenda em um mundo cada vez mais distante nos lembra que a vida não é só a vida que vivemos? Que a vida é muito mais do que a correria do cotidiano, muito mais do que os parques urbanizados, podados, cortados, desenhados, cuidados e superficializados que nossos olhos alcançam todos os dias? Que a vida pode estar em um canto mal cuidado do universo, abandonado à própria sorte e, no entanto, cheio do viço e do vigor das seivas, caules, capins, flores sem regras, sem ordenamento, sem planejamento?

Então, aqui uma homenagem a todos os quintais, todos os recantos, todos os matos, todas os sítios e lugares onde as ervas, daninhas ou não, floridas ou não, com seus espantos e espaços preenchidos com os verdes multi-tons do mundo natural ainda resistem, persistem, existem.

E que sejam assim para sempre, amém.

Margaridas do campo - Varjão, GO - 2011

Margaridas do campo - Varjão, GO - 2011

Margaridas do campo - Varjão, GO - 2011

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Fotografando o céu que nos protege

Sobre a fotografia do céu - que é um dos maiores encantamentos do fotógrafo de preto e branco - e suas nuances, a sequencia de fotos a seguir foi feita no mesmo local e praticamente no mesmo instante. A primeira foi feita sem nenhum filtro ou tratamento:

Curral em fazenda, Varjão, GO - 2011

Aqui, com o uso do filtro amarelo, há o aprofundamento das nuvens, maiores detalhes, mais drama:

Curral em fazenda, Varjão, GO - 2011

Com o filtro laranja, menos drama no céu e mais textura nos objetos, como a parede da casa e seu telhado:

Curral em fazenda, Varjão, GO - 2011


E com o filtro vermelho, mais contraste, menos detalhes nas sombras:

Curral em fazenda, Varjão, GO - 2011


Usar os filtros para fotografia em preto e branco, digital ou com filme, é como colocar óculos escuros em dia de sol brilhante. É adicionar conforto ao olhar e prazer no perspectiva de um céu profundo e emblemático, como o do Planalto Central. É usar os recursos da tecnologia para ajudar a nos emocionar e a enxergar além da casa, do curral, do gado e da elevação no horizonte: é parte de viver a vida com engajamento.

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Fotografar e resistir

Cinza. Essa é a cor dominante nos campos do Planalto Central entre julho e setembro. Cinza da fumaça das queimadas, da poeira levantada após a terra colhida, do céu azul obliterado pela secura do ar, pelo vento que circula sem a proteção natural das árvores do cerrado, derrubadas para o plantio da cana, da soja, do milho, do algodão...

Jataí, GO - 2006

De acordo com Aziz Ab’Sáber, em Os Domínios de Natureza no Brasil – Potencialidades Paisagísticas, “... os domínios dos chapadões recobertos por cerrados e penetrados por florestas-galerias – de diversas composições – constitui-se em um espaço físico ecológico e biótico, de primeira ordem de grandeza, possuindo de 1,7 a 1,9 milhões de quilômetros quadrados de extensão”.

Segundo maior bioma do país, toda essa imensidão de terra e riqueza biológica única encontra-se em franco processo de extinção, ameaçada pela produção agrícola sem controle. Desprotegido pela Constituição Federal de 1988, o bioma Cerrado não foi contemplado como Patrimônio Nacional, ficando indefeso quanto às condições que assegurem a preservação do meio ambiente e do uso dos recursos naturais.

Carvoeiros queimando o cerrado - Chapadão do Céu, GO - 2006

Como conseqüência, as chamadas Savana Arbórea Aberta, Savana Parque e Savana Gramíneo-Lenhosa, típicas de chapadões, praticamente não existem mais. As únicas áreas que sobrevivem precariamente são as florestas de galerias e matas ciliares, que acompanham o curso dos rios e constituem áreas de preservação permanente, a chamada Savana Arbórea Densa (o cerradão), que normalmente vivifica em regiões de topografia mais acidentada, e e cerrado de altitude, no topo das elevações, todos ainda imunes à tecnologia das máquinas agrícolas. Mesmo assim essas áreas são atacadas pelos carvoeiros, geralmente clandestinos, que devastam os cerrados e cerradões para fornecimento de lenha a siderúrgicas.

Lobo-guará morto em rodovia - Serranópolis, GO - 2006


O desrespeito às leis de proteção ambiental e a precária fiscalização fazem com que os 20% de Reserva Legal obrigatórios para qualquer propriedade rural sejam freqüentemente desprezados, tangendo para as rodovias, para os campos lavrados e para os chamados cerradões espécimes em risco de extinção, sujeitando-as à super-população em pequenos espaços e aos atropelamentos e acidentes nas movimentadas estradas que cortam o Planalto.

Cachorro-do-mato morto em canavial - Goiatuba, GO 2009


Não concordamos com a opinião de que o fotógrafo de paisagem e natureza não deve mostrar o que está errado, que isso é trabalho para outro tipo de fotografia. Porque acreditamos que o que se vê de destruição e degradação no cotidiano das viagens ao campo e nas expedições, deve ser mostrado ainda que em contexto apropriado. Como não ajudar a denunciar o processo avassalador da produção irresponsável e sem controle?

Não se trata de proibir a produção. Não se trata de impedir que as máquinas de plantio e colheita cumpram seu papel, desde que de maneira responsável. Trata-se de exigir o cumprimento da lei da reserva legal, de denunciar o descaso dos constituintes de 88 em relação ao Cerrado e de procurar reverter esse quadro.

As imagens falam por si.

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Qual é o problema?

Florestas, cerrados, rios, ilhas, pequenas vilas e grandes metrópoles são nosso habitat. E são para serem vividos com intensidade por todo homem que um mínimo de sonho impele. Se um homem se sente bem na urbe agitada, no vai-vem gigantesco de pessoas caminhando em largas avenidas, no interior de um escritório gelado pelo ar condicionado, esse homem tem o direito de lutar por isso. Se um homem, que embaixo do céu coalhado de estrelas do Planalto Central, ouve o canto da seriema e sonha com o fascínio das luzes e carros da cidade grande, é de todo justo que lute pela sua ida ao sonho. E se um homem, agoniado por essas mesmas luzes e trânsito, enfastiado pelo conforto do ar condicionado e pelo terno das pessoas que vivem nesse mundo de negócios, sonha com o canto da seriema, com o céu de trilhões de visíveis estrelas, com a prosa de fim de noite na pequena vila distante, esse homem também tem todo o direito de conseguir isso. E é justo que então lute!

Parece fácil entender e viver esses desejos e vontades. Mas a angústia que no peito se instala, com o confronto direto entre fatos e projetos não é simples de ser vivida. Um técnico, que na lida diária trafega entre circuitos eletrônicos, telas com imagens mutantes, cabos de computador e problemas de lógica matemática, pode se sentir feliz com isso e, interiormente, se comprazer com seu intelecto. Mas, se no momento em que, cumprida a tarefa diária, no caminho de casa se depara com a realidade estridente do grande centro urbano ao mesmo tempo que sonha com a realidade de cidades distantes, com a chuva forte batendo no rosto, perdido em alguma plataforma no meio do oceano, com uma noite mágica em um acampamento no coração de uma mata tropical, no peito desse técnico estará instalado um confronto e esse confronto não será simples.

E esse técnico, reduzido ao simples homem que é, irá sofrer com isso. Existe então um direito ao sonho e à conquista, e esse direito cobra um preço muito alto para ser vivenciado. E é desse preço, da agonia, dor e da angústia que ele se traduz, que falo. Pois se o homem se deixa levar pela irrealização de suas ilusões, ele é um sonhador que se acaba, sem perceber, no meio do seu conformismo - e a intolerância um dia o descobre e o esmaga. Se ele, por outro lado, se deixa ser perseguido pelo seu sonho, não percebe os proveitos e alegrias que convivem no dia a dia, e se se entrega à busca sem freios de uma obsessão.

O direito ao sonho carrega um outro direito: o da escolha. A escolha que pode fazer com que um dia um homem, para não cair no maniqueismo do "posso não posso", prefira partir para suas cidades distantes, seus acampamentos rudes no meio de outros homens, seus momentos de chuva no rosto e paisagens longínquas ao alcance dos olhos. E essa escolha pode permitir a esse homem que, um certo dia, seu coração sinta a nostalgia do passado e o leve de volta de onde um dia partiu. E nisso o direito à escolha encerra sua grande virtude: a descoberta de que se pode voltar e se arrepender sem se sentir prisioneiro de uma atitude errada. Porque ele escolheu. E a beleza de múltiplos caminhos pode fazer com que o homem vá aos seus paraísos distantes e, revigorado pela certeza de que eles existem, volte ao seu cotidiano enxergando nele brilhos anteriormente não vistos. E fazer isso quantas vezes pedir seu coração, até que seu cotidiano se transforme nesse próprio ir e vir.

E seu sonho poderá estar sendo vivido.

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Cavalcante e a Chapada dos Veadeiros

Acima de Alto Paraíso, no nordeste do Estado de Goiás, existe Cavalcante, fronteira norte do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros. Além de território dos Kalungas, uma comunidade remanescente dos quilombos, Cavalcante está em uma região de beleza estonteante, onde os campos de altitude e as formosas elevações tornam o horizonte uma paisagem de magia e cinema.

Campo úmido na Chapada dos Veadeiros - Cavalcante, GO - Maio/08

No início de maio, lá fui, por convite de um grande amigo, participar de um programa até então desconhecido para mim: nada de veículos off-road, barulhentos e pesadões. Apenas e simplesmente uma mulada, um passeio de dois dias em lombo de mula, subindo aquelas altas serras por caminhos ancestrais, rotas de tropeiros do século XVIII, atravessando campos limpos e isolados, cruzando rios de águas transparentes.

Atravessando o Rio São Bartolomeu - Cavalcante, GO - Maio/08

Uma verdadeira trilha no sertão, inacessível aos automóveis, que nos levou de volta ao passado, ao resgate do silêncio e da contemplação, ao esforço físico recompensado pelo encantamento com os campos e com as águas.

Cachoeira Véu de Noiva - Cavalcante, GO - Maio/08

Foram dois dias na companhia do Zé Ronaldo, grande figura, contador de histórias, organizador do passeio, provedor dos mantimentos e proprietário das mulas e das tralhas necessárias para a jornada. Dono de uma energia invejável, Zé Ronaldo conduziu o grupo com o auxílio do Carlinhos e do João, aquele um cavaleiro jovem e já experiente e este um simpático, eficiente e bom de papo conhecedor de todas as trilhas e atalhos do caminho.

E tinha o Tutu, figurinha única, um Fox Paulistinha valente que acompanhou a tropa todo o tempo, correndo através dos campos, subindo e descendo as serras e nadando nos rios, trançando pelo meio das mulas nas águas dos córregos, se divertindo, um companheirão.

Tutu e o grupo - Cavalcante, GO - Maio/08

A Chapada dos Veadeiros é um lugar único. Conhecê-la através de Cavalcante também se torna uma experiência única. Tem mais de uma centena e meia de cachoeiras. Tem uma boa infra-estrutura. E tem o Zé Ronaldo com sua mulada. É imperdível.

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Seu Célio

CARTA AO AMIGO CLAUDINHO:

Claudio (e a todos que, de uma forma ou de outra, conheceram seu Célio),

Seu Célio teve uma grande participação na minha entrada nesse mundo novo que é Goiás.

Lembro-me de assistir, entre surprêso, encantado e divertido, ao primeiro diálogo legítimo entre goianos que presenciei: seu pai, Neném Prado, e seu tio, Célio, sentados na grama em frente à sede da fazenda em que este trabalhava, lá em Guapó, jogando conversa fora, naquele ritmo sertanejo, tão lento e cantado quanto admirável.

Seu Célio na fazenda - Guapó, GO - Junho/90

Lembro-me de cavalgar com ele pelos pastos da fazenda, de "ajudá-lo" a juntar as vacas de leite no fim do dia, de irmos, eu e tantos outros, à Guapó só prá fazer um churrasco, beber umas cervejinhas e tirar uma prosa com aquele veterano boiadeiro, de fala mansa, olhos azuis e semblante bondoso.

Foi lá, e com a participação dele, que Julia, minha filha então bebezinha, viu as galinhas, as vacas e os cavalos pela primeira vez na vida.

Eu lamento muito. Se pudéssemos mudar a ordem natural das coisas, gente como seu Célio não sofreria e não morreria.

Apresente minha solidariedade a todos. E muito obrigado por me avisar.

André

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O bêbado e o cachorro

O Kid é um bom amigo de toda a vida, o bom aluno onde eu fui o péssimo. E também outro gênio da matemática, que me deu explicações fundamentais na álgebra e geometria, para eu enfrentar diversas situações difíceis com os professores do velho Colégio Estadual Barão do Rio Branco, lá em Santa Cruz, no subúrbio do Rio de Janeiro. Professores como o Abio, de matemática.

E esses eram tempos em que professores da estatura do Abio, de um Laplana,um Feijó, uma Brigite, uma Olga, se deslocavam da Zona Sul do Rio em trens suburbanos, encarando uma viagem de 2 horas de ida e outro tanto de volta, para ir dar aula nos confins da cidade, em nome da sobrevivência, é lógico, mas também em nome do respeito ao ensino público. Tempos em que o ensino público era de primeira qualidade e em que os pais faziam os filhos se desdobrarem no “admissão” (a antiga 5ª série do primário), para que conseguissem passar no “vestibularzinho” dos ginásios (atuais 5ª a 8ª série) estaduais.

Pois pergunta-me o Kid, o velho e bom amigo de toda a vida, de uma foto de um bêbado beijando cachorro e sobre o Moleque, cavalinho que tive nos tempos daquele ginásio. Sobre o Moleque, estou mesmo devendo escrever alguma coisa. Mas a foto do bêbado e do cachorro não é minha.

foto Roberto Oliveira Melo Fº - Março/84

Foi feita com minha câmera, uma hoje velha Nikon Fm2, mas pelo Betinho, amigo comum a nós dois, num carnaval de rua do começo da década de 80, bem lá na pracinha do Morro da Fábrica de Sabão. E o retratado é o Quinca, que não sei por onde anda. Como também não sei por onde anda o cachorro, mas como lá se vão mais de 20 anos, acredito, com firmeza, que deve estar na terra dos pés juntos há algum tempo.

Cabe ao Betinho responder pela foto, pelo Quinca e pelo cachorro, já que esses dois privavam de sua relação: o primeiro por ser parente dele, acho. E o segundo por ser de sua posse. Mas isso é também outro acho.

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A confraria dos caçulas

Hoje, 8 de fevereiro, meu único e primogênito irmão faz 60 anos. Nossas cavalgadas sobre os cavalos de bambu, com cabresto e freio de barbante na ponta, disparados no quintal da casa de subúrbio dos anos 60, caçando índios e bandidos, estão aqui bem no meu rastro, ainda na memória recente.

Nossas gritarias e brigas, ranhetagens e teimosias, nossos tombos e ralados, nossas diferenças, nossas igualdades, todas aqui, bem do meu lado, como sefosse ontem à tardinha, depois da aula.

Eu faço parte da confraria dos caçulas. Só quem é caçula sabe o que significa isso: a proteção extra da mamãe, a inveja dissimulada que sentimos da inteligência e “maturidade” do mais velho, a indulgência do papai ...

Não fui primogênito. Tenho mesmo satisfação de ter sido privilegiado caçula. Mas se eu fosse “o mais velho”, com certeza queria ser como meu bom e mais velho irmão. Meu companheiro de jornada, gênio admirado, meu sabe-tudo da Física, da Matemática e de todas as coisas que eu queria ser quando pequeno.

Aquele que dedicou quase 30 dias de suas férias na escola militar para tirar ocaçula da miséria da repetência, numa “segunda época” de ginásio, sentando comigo e me dando aulas sistemáticas de Português e Matemática, em um distante Janeiro. Que culminaram com minha gloriosa aprovação.

Meu amado irmão, aqui vai minha modesta homenagem e o meu desejo a você e a todos os “mais velhos” do seu calibre: que seu caminho seja coroado por uma longa e saudável vida!

E parabéns prá você.

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A bicicleta aro 22

Um amigo aniversaria no dia de hoje, ele é também nascido naquela que já foi a Cidade Maravilhosa, e me escreveu para falar da idade e essas coisas que todo mundo começa a falar quando se vai envelhecendo... E eu me lembrei do dia de Cosme e Damião, que é hoje, 27 de setembro, dia de correr pelas ruas do Rio e pedir doce e balinhas nos vizinhos que cumprem promessa por graças supostamente alcançadas e distribuem saquinhos de guloseimas e porcarias adocicadas para a molecada. E veio a saudade do meu tempo de pé no chão, short sem camisa, bicicletinha aro 22 – meu pai dizia que era japonesa! - a voar pelas ruas pouco movimentadas do meu bairro de infância, atrás das casas que distribuíam os melhores pés-de-moleque, cocozinho de rato, cocada, bolo de fubá, maria-mole! ...

Cadê uma fotografia desse tempo, dessas ruas, dessa infância de Cosme e Damião? Não tenho ... ou, parece que lembro de me ver numa fotografia amarelada, eu de pé, barrigudinho, exatamente de short e sem camisa, segurando uma bicicleta de aro 22, guidon reto, é, parece ...

Cadê uma fotografia da gente chegando em casa com os braços sem tamanho para caber tanto saquinho de doce, esparramando pelo chão os pirulitos e bananadas, com a mãe da gente sorrindo e pedindo um pedacinho daquele doce de leite, daquela maria-mole? Cadê uma fotografia da minha mãe naquele tempo, bonita como ninguém, a me afagar com os olhinhos brilhantes e a provar um pedacinho de cada gulodice de que gostava?

Cadê a fotografia da rua Primeira, essa eu lembro, rua ainda sem asfalto, onde a gente corria na poeira para a casa de seu Maninho mas já com um olho na casa de d. Alzira, na hora que ela ia distribuir seus doces? E das filas que a meninada fazia na frente das casas, desordenada, aos gritos, empurra daqui, puxa dali, até que a porta se abria e a gritaria virava algazarra e cada um pegando seu saquinho, mais de um, até três, e depois a nova correria para a próxima casa?

Cadê a fotografia, cadê a boa infância, cadê a nossa vidinha suburbana do bairro distante e tranqüilo, bem na capital da república? E cadê minha bicicletinha japonesa aro 22?

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O domínio do existente

Tenho pensado muito sobre o passar do tempo, sobre as referências que se foram, desde a remota lembrança do bairro da infância, que foi violentado pela explosão urbana, até o passado mais recente, do cerrado que conheci há mais de 25 anos e que hoje quase não existe mais, a savana que em um dia quente de primavera, em 1978, ao viajar pelos planos de Goiás e Mato Grosso, me deu a primeira materialização do significado da palavra Pátria... e de como tudo mudou tão rapidamente.


foto André Monteiro
Campo limpo de savana - Mineiros, GO

Tenho pensado sobre o significado da fotografia em tudo isso, sua amarração com o escoar da memória e da vida, o congelamento do momento que nunca mais se repete... e acho que eu queria reproduzir aqui citações de pensadores, filósofos, cientistas e outros, mas vem o medo de ser pedante ou de ser superficial, de se igualar ao leitor de orelha de livro, aquele que só conhece a sinopse, que só apreende a síntese.

foto André Monteiro
Carnaval de rua no bairro da infância - Rio, RJ - início dos 80

 

Afinal, por que essa ligação, fotografia e tempo e memória? O que EU penso disso, o que EU penso da fotografia?

É muito fácil a gente recorrer aos que já pensaram e, preguiça maior, para que matutar sobre o que EU penso? Afinal (lá vai uma citação), vejam só o que já disse Wolfgang Leo Maar:

“A dissolução da formação como experiência formativa resulta no império do que se encontra formado, na dominação do existente”.

É exatamente isso que acontece com a vitória da ideologia do consumo sobre todas as outras - o domínio do que já está pronto, o fetiche pela “coisa”, o fascínio de (apenas) dominar a técnica do que já existe (câmeras digitais e telefones celulares cada vez mais potentes, softwares que tudo podem, que tudo fazem). É o domínio do instrumento sobre a reflexão. Da eficácia no uso da ferramenta sobre o pensamento. A dominação do existente.

Antes de tentar um exercício mental mais exaustivo, eu posso deduzir que – a priori - meu fascínio pela fotografia está ligado à questão da paralisação do tempo. À questão da eternidade. E isso me envereda por um caminho existencial talvez acima das minhas capacidades intelectuais de interpretação, ou, pelo menos, de decodificação disso a ponto de poder passar para a palavra escrita.

E volto ao “tenho pensado”. Tenho pensado muito que não sou homem desse século. Que sou daqueles que ainda pensam na 2ª Guerra Mundial, uma das poucas vitórias sobre a barbárie. Que ainda se arrepiam e enchem os olhos de lágrimas quando vêem um documentário sobre a Guerra do Vietnam. Ou sobre a Batalha do Chile. E que a geração do consumo, da multiplicidade de informações com pobreza de conhecimento, nem sabe o que foi isso. Não sabe e não se importa.

E uma resposta possível ao meu pensar é que o registro fotográfico pode ser meu último elo com uma realidade tão mutante que um dia pode deixar de ser realidade.

Mas só o fato de eu tentar definir sobre o que penso disso tudo, já é uma vitória. E poderia, quem dera, ser o começo da vitória da resistência sobre o consumo.

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Viagem sem fim

Quem nunca desejou estar numa estrada sem fim, contra um céu azul que toca o horizonte lá na frente? E também ouvir uma boa música nessa viagem? E olhar para os lados e apreciar a paisagem? Mas ela passa sempre borrada, o que nos impele a só olhar adiante. A só desejar o porvir e não ver o que está ao lado.

Porque, no dia a dia, nós viajamos é sobre o fio da navalha que é o cotidiano. E viajamos com uma naturalidade que, vista de fora, é espantosa. Como temos a capacidade de caminhar com tanta perícia sobre uma superfície tão fina e perigosa como um fio de navalha?

Então, desejamos viajar sempre em nossa estrada sem fim, tentando olhar a paisagem borrada... E essa viagem nos leva para frente, para o horizonte que se confunde com o céu. Assim passamos os dias, curvados sob o peso opressivo do cotidiano e, em alguns poucos momentos, nos alegrando com as infinitas possibilidades que trazem os devaneios da viagem na estrada sem fim.

foto André Monteiro
A paisagem que passa borrada - cercania do Pq.das Emas- Mineiros, GO - 1991

E enquanto avançamos sobre o caminho fino como o fio da navalha que é a realidade, alguma coisa nos impele a viajar pela estrada sem fim do sonho, em direção a um céu azul profundo, mas com a paisagem sempre borrada, bem do nosso lado. Ah, como deveríamos ter a capacidade de congelar essa paisagem borrada, como numa fotografia em alta velocidade!

O objetivo maior de quem fotografa o espaço em que vive, esse vasto ateliê de fotógrafo que é o mundo, é congelar a paisagem para permitir ao olhar um instante de perplexidade, de maravilhamento ou de horror. Um instante em que a gente se desvie dos devaneios e sonhos com o futuro e enxergue, para o bem ou para o mal, o exato momento em que estamos vivendo.

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O amor, a loucura

Ordem do dia de Bonaparte (Napoleão), Primeiro Cônsul, a sua guarda:

“O granadeiro Gobain suicidou-se por amor: era aliás um excelente sujeito. É o segundo acontecimento dessa natureza que acontece à companhia desde um mês. O Primeiro Cônsul ordena que seja posto na ordem da guarda: que um soldado deve vencer a dor e a melancolia das paixões; que há tanta coragem verdadeira em sofrer com constância as penas da alma, quanto em ficar firme sob a metralha de uma bateria ...”

... Perspicácia de Bonaparte, assimilando o amor a uma batalha, não – trivialmente – porque dois parceiros aí se enfrentam, mas porque, cortante como uma metralha, a rajada amorosa provoca ensurdecimento e medo: crise, revulsão do corpo, loucura: aquele que se apaixona à moda romântica conhece a experiência da loucura ...

O título e o texto acima foram extraídos de “Roland Barthes por Roland Barthes”, publicado no Brasil pela Editora Estação Liberdade. Barthes, filósofo, sociólogo e escritor francês, escreveu sobre a fotografia: é também autor de “A câmara clara”, onde abre o livro, mais uma vez, falando sobre Napoleão – e a fotografia:

Um dia, há muito tempo, dei com uma fotografia do último irmão de Napoleão, Jerônimo (1852). Eu me disse então, com um espanto que jamais pude reduzir: vejo os olhos que viram o Imperador! Vez ou outra eu falava desse espanto, mas como ninguém parecia compartilhá-lo, nem mesmo compreendê-lo (a vida é, assim, feita a golpes de pequenas solidões), eu o esqueci.

Aqui compreendida, a paixão de Barthes pela fotografia é aquela mesma que nos move: esses textos, com a tênue conexão do mesmo personagem - Napoleão - ajudaram a mim na compreensão do significado da fotografia, sua arte e sua magia, sua ligação com a palavra escrita, sua capacidade de reproduzir ao infinito o que só ocorreu uma vez - ali, no maravilhamento do autor com a descoberta do olhar que "viu o Imperador"; acolá, na reprodução simplesmente escrita da magnífica Ordem do dia de Napoleão, tão magnífica que parece formar uma imagem na nossa imaginação.

Ainda bem que temos esse contraponto às superficialidades, ao consumo rápido e sem reflexão, ao instrumentalismo que reduz o saber à técnica, algo como “uma boa imagem diz por si só”. Fotografia não é só a imagem. Fotografia é a emoção, é o contato com a realidade - como já ouví alhures. Pode ser amor e pode ser loucura.

foto André Monteiro
A loucura - Mineiros, GO - Janeiro/07

Uma boa imagem pode dizer muito por si só, mas não tudo. Uma boa imagem é mais do que isso: sua capacidade de nos emocionar é um convite à reflexão, ao questionamento, à criação. É um caminho para o conhecimento.

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A beleza estava ao lado

Eram quase seis da tarde e eu corria contra o tempo. Saí da longa e poeirenta estrada de terra, parte não asfaltada da BR-158, na fronteira do Mato Grosso do Sul com o sudoeste de Goiás e embiquei na GO-341, a rodovia que liga o Parque Nacional das Emas à cidade de Mineiros.

Meu objetivo era chegar nos limites do parque ainda a tempo de pegar a beleza do por do sol e, com um pouco de sorte, conseguir fotografar seu cerrado, recanto natural intocado.

Não fui lá só para isso. Mas queria aproveitar a oportunidade de estar próximo dali. Naquele dia, eu havia passado em Serranópolis, em Goiás, e fotografado o Morro da Bandeira.

foto André Monteiro
Acesso ao Morro da Bandeira - Serranópolis, GO - Junho/07

Havia passado pela cidade de Costa Rica, no MS, da qual guardei a boa arquitetura de suas edificações, a pintura de bom gosto das lojas e lojinhas de comércio na avenida principal e o cuidado de seu povo com o calçamento, com os parques e os passeios públicos. O que mostra que uma pequena cidade interiorana não precisa ser empoeirada nem encardida, mesmo quando cercada pelos imensos campos de lavoura.

E eu estava com pressa de chegar na longa cerca do Parque das Emas. Acelerei o carro mas o crepúsculo chegou rápido, o negro da noite começou a se espalhar pelo céu e só ficou o dourado do sol, que fugia célere pelas bandas do oeste. Tarde demais. Parei o carro para pegar ar, como se fosse eu que estivesse correndo sobre as pernas...

Olhei para o parque, senti aquela imensa solidão que só o planalto tem, com seu horizonte ao infinito e lamentei que nada mais era perceptível para as lentes, nenhum detalhe do cerrado, só sombras e insinuações de cupinzeiros, de arbustos, só o pio agudo do gavião que procurava um pouso. Aí então, olhei para o outro lado da rodovia. E vi o sol derrubado e uma lavoura imensa de algodão, bem na minha frente. Corri ao carro, peguei a câmera, o monopé, montei tudo e saí fotografando. Deu para aproveitar uma foto.

foto André Monteiro
Campo de Algodão no crepúsculo - Mineiros, GO - Junho/07

A beleza estava ao lado, mesmo que na lavoura que a tudo devora.

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A caminho do paraíso

Depois de Brasília, indo pela BR-020, quando se pega a GO-118 e se põe a proa do carro para o norte, deixa-se para trás o tumulto e se entra em verdadeiro caminho para o paraíso. Alto Paraíso é, mais do que reserva da bioesfera, patrimônio paisagístico do país.

A 360º, tendo a cidade como ponto central de um círculo imaginário, para qualquer direção que o viajante vá, há uma paisagem fantástica, com incrível poder de sedução.

Essas fotos das estradinhas de terra foram feitas próximas ao caminho para o Moinho.


foto André Monteiro
Caminhos - Alto Paraíso, GO - Maio/07


foto André Monteiro
Caminhos - Alto Paraíso, GO - Maio/07


Curioso, nesse mesmo final de maio resolvi ir até o Jardim Zen, referenciado em guias de turismo, próximo ao ponto culminante de Goiás (1676 m de altitude). O caminho é pela GO-118 ... e mais bela ainda fica a paisagem. Estamos na direção de Cavalcante e Teresina de Goiás e, apesar da placa anunciar o Paralelo 14, no meu GPS a marca era de 13º 58’, com margem de erro de 7 metros, o que daria o paralelo a uns 2 km ao sul dali (alguém errou ...):


foto André Monteiro
Jardim Zen - Alto Paraíso, GO - Maio/07

Moreira Lima, escriba da Coluna Prestes, que passou na região em 1924/1925, descreve em “A coluna Prestes – marchas e combates”:

“... Ali, onde não há altitudes superiores a dois mil metros, as montanhas não impressionam pela grandeza acabrunhadora de sua massa. Elas se aprumam acima das colinas de formas suaves, dos Gerais larguíssimos e dos seus incomparáveis rios de águas verde-claro, como velhos templos pagãos ali erguidos, há séculos, para o culto de ignotas divindades ...

... Dos píncaros das suas serras, ou dos cimos das suas belas colinas, alongávamos a vista para o horizonte, embevecidos pela contemplação dos panoramas empolgantes que se desdobravam para todos os lados, esquecendo-nos por momentos dos inimigos que nos rondavam a distância. Até os mais rudes soldados manifestavam o seu entusiasmo diante daquelas paisagens indescritíveis ...”

foto André Monteiro
Os gerais e as colinas - Alto Paraíso, GO

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Devo uma para o Aduildo


Hoje vou falar um pouco do planalto, um pouco mais de uma serra e muito de uma família sertaneja, a família do Aduildo.

Quem viaja no sudoeste de Goiás pela BR-364, a caminho do Mato Grosso e antes de chegar na cidade de Mineiros, desce uma serra belíssima, logo depois do Posto 71. Desce porque o planalto goiano (e de todo o centro-oeste do Brasil) tem a característica singular de deixar a gente viajar numa chapada onde se enxerga o céu tocando a terra e, de repente, mergulha em declives quase abruptos, que permitem ao viajante ver, da estrada, as elevações abaixo dele, em vista panorâmica.
foto André Monteiro
Crepúsculo na Serra Azul - Mineiros, GO - Julho/06
Namoro aquela serra há muitos anos e descobri nos mapas que ela é chamada de Serra Azul. Sempre vi uma porteira de fazenda, com uma plaquinha indicando “Fazenda Arnica”, um número de celular e com uma estradinha de terra sumindo em direção aos contrafortes da serra. Só que a porteira tinha uma corrente grossa, trancada a cadeado ...

Ano passado, em julho, resolvi ir até lá para conhecer a serra de perto. Telefonei para aquele número da plaquinha e descobri o arrendatário da fazenda em Jataí. Fui até ele, expus minha intenção de fotografar o que pudesse em sua propriedade e ele, gentilmente, me passou o celular da sede e o nome do seu capataz, Aduildo. Depois de algumas tentativas, consegui marcar com ele um horário pré-definido para nos encontrarmos na porteira, e aí então Aduildo me abriu o caminho para a estradinha de terra.

Foram duas viagens, muitas fotos tiradas e muita picada do mosquitinho “borrachudo” (ou “pórvra”, como chamado em Goiás), que no entardecer vira uma verdadeira praga e só é eficientemente combatido com o uso de repelente em todas as partes descobertas do corpo.

Desses dias, guardo na memória a hospitalidade do Aduildo e sua família, particularmente de seu filho do meio (do qual, imperdoavelmente, esqueci o nome), rapaz com uns 14 anos, que selou dois cavalos e me guiou por aqueles sertões em um fim de tarde de julho, me levando para conhecer e fotografar, de perto, as majestosas formações. E ainda ajudou a carregar o tripé, trambolho incômodo que me atrapalhava no domínio da montaria e na azáfama de parar, apear do cavalo, preparar o equipamento, fotografar e montar de novo. Algumas fotos foram tiradas de cima do lombo do cavalo ...

Meu guia trabalhava com o pai na fazenda e, no período das aulas, por volta das 11 da manhã, ia a pé até a beira da BR-364 (uns 4 km no meio do pasto) e esperava o ônibus escolar que o levava a Mineiros, distante dali 30 km, onde concluía o 1º grau. Estudava à tarde e chegava em casa de volta, na fazenda, só lá por volta das 8 horas da noite ... Nesse horário, após a janta, fazia as tarefas escolares, pois no dia seguinte, de manhã bem cedo, já tinha que estar de pé, campeando gado na lida diária. Menino esperto e inteligente, que orgulha e dignifica nossa gente e nossa terra. E que até hoje me faz refletir que esse tipo de brasileiro é o contraponto ao nosso desencanto diário com tantas notícias ruins, com tanta coisa errada, com tanta gente errada ...

Foi lá, já na noite fria de julho, que depois de horas fotografando, tomei um café com leite, comi um bolo e um doce de queijo, bem típico de Goiás e Minas, chamado de "ameixa". E foi lá, na hora da despedida, que prometi a Aduildo que voltaria para fotografar a ele e sua família e fazer uma bela ampliação, numa bela moldura, para que ele a pendurasse na parede de sua escolha.

Pois passei por lá há poucos dias, telefonei várias vezes e não consegui contato. Parei na porteira - que continua com o cadeado - mas a plaquinha não tem mais o número do telefone. O tempo era curto e não pude parar em Jataí para falar com o proprietário ... e vim embora matutando por onde andará aquela família sertaneja, dura e forte. E que preciso voltar lá ainda esse ano, pois promessa feita é promessa a ser cumprida.

Te devo uma, Aduildo.


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A velha porteira

foto André Monteiro
A velha porteira - Varjão, GO - Fev/07

Há algumas fotos de que gostamos mas que não satisfazem nosso padrão, talvez imposto por conceitos de qualidade externos a nós, mas de qualquer forma estabelecido como nosso padrão, uma vez que o aceitamos e o praticamos. Quem define o que é uma boa foto? Um conceito, um crítico, uma opinião, nós mesmos? Ou um padrão socialmente aceito?

Uma boa foto pode ser boa para mim, mesmo que não atenda "meu" padrão. Pode ser péssima para mim, mas boa para o outro. Ou pode ser péssima para o outro. Eu não sei como é “A velha porteira”, mas sei que gosto dela embora não a ache uma boa foto, dentro do "meu" padrão de qualidade.

Quando a tirei, queria que todos os planos ficassem focados. Não sei como a fiz com o diafragma aberto e, quando revelada (sim, é filme, um negativo Iso 400), vi o erro. Errei. Mas, olhando melhor, a estreita profundidade de campo fez com que velha porteira se destacasse, como se fosse um portal de comunicação com um mundo antigo, que ficou lá trás, no passado, borrado mas um pouco definido, algo que não se descola completamente, algo que ainda se vê.

Tem a ver com memória, a velha porteira

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Fotografar é uma transação solitária

Uma transação solitária é algo que não pode ser feito coletivamente. Não há espaço, não há tempo, não há clima. Não existe a possibilidade de se dividir a mesma emoção e a mesma perspectiva do olhar com outros ou mesmo com apenas um outro.

Há um tipo de fotografia que DEVE ser solitária. Não falo da fotografia do flagrante, das festas ou dos eventos, da família ou dos modelos, profissionais ou amadoras. Falo do sujeito estático, da sua beleza única, daquilo que nos emoldura, da visão particular que cada um de nós tem dela. Falo da paisagem e da natureza que a forma. Não só da paisagem natural, mas mesmo da paisagem antropizada, reconstruída sob o modelo do homem.

O momento de fotografar a paisagem é único. E não dá para dividi-lo sem perder o olhar crítico, o resultado final que se quer, o “punctum” que enxergamos no objeto da fotografia e que desejamos no resultado final, aquele de que fala Roland Barthes. Se estamos acompanhados, a conversa desconcentra, os objetivos do outro não são os seus, a observação do outro o pode intimidar, sua opinião o pode dividir. Conseguir um bom resultado em uma fotografia de paisagem é muito difícil - para não dizer raro - mesmo que planejada, trabalhada, suada. Quando não conseguimos nos concentrar, então, fica bem mais complicado.

E quem pode ter o mesmo instinto, o mesmo rigor particular nos tons da luz do poente ou do nascente, na textura de um campo de milho ou de uma árvore, a não ser você?

Para fotografar, sempre que posso viajo sozinho. Observo e reflito sobre o objeto da foto solitariamente, tentando enxergar o resultado que desejo. A vantagem dessa solidão é que o resultado que posso conseguir a extrapolará para se tornar um presente ao coletivo: mostrar o que vimos, sua beleza única exposta, tentando fazer com que todos compreendam aquela paisagem como nós a compreendemos.

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