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Amarelo
e Azul
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Ipê
amarelo do cerrado - Goiânia, GO - Agosto/08 |
Nem
tudo que é torto é errado. Vide as pernas do Garrincha
e as árvores do Cerrado (Nikilaus Behr).
Fiz
essas fotos em agosto de 2008, época de seca em Goiás,
quando a vegetação fica esmaecida e perde o viço
do período das chuvas. Mas o azul do céu e o amarelo
do Ipê se mostram magníficos, como que para compensar
a secura do ar e o calor abafado.
Nada compensa mais o sacrifício do fotógrafo caminhante,
que deixa o carro na beira da estrada e se envereda pelos campos,
pastos e cruza cercas para chegar perto daquela mancha amarela que
se destaca no horizonte, do que ver no resultado de seu trabalho
a beleza do cerrado fielmente estampada.
Penso que essas fotografias são o exemplo típico da
"imagem que vale mais do que mil palavras". Porque o que
retratam é a bela simplicidade da savana brasileira. E espero
que valham como poemas que não sei escrever.
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Detalhe
de Ipê amarelo do cerrado - Goiânia, GO - Agosto/08 |
Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.
Cora
Coralina, parte de O Cântico da Terra
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O
combate
Sexta-feira, 13 de janeiro de 2012, fui ao Combate, entre Jataí
e Perolandia, em Goiás. Local do mais famoso dos entreveros
da Coluna Prestes em sua inédita jornada de 25.000 km durante
2 anos pelo Brasil, de 1925 a 1927, a Invernada foi uma das passagens
da coluna por Goiás, cuja marcha não foi superada nem
pela histórica Grande Marcha de Mao-Tse Tung na Revolução
Chinesa de 1949, que, embora duríssima, não passou de
10.000km e durou 1 ano, de outubro de 1934 a outubro de 1935.
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| O
comando da Coluna, 1925 - Reprodução |
A visita,
feita a convite do Dr. José Martiniano da Silva para fotografar
o sítio histórico, me fez admirar ainda mais o trabalho
do historiador, que munido do seu caderno de notas, de sua curiosidade,
da paixão pelo passado e pelo interesse em desvendar nossas
origens, consegue viver como ninguém a emoção
de estar no mesmo lugar em que nossos antepassados estiveram, de mirar
a paisagem com o mesmo olhar que eles miraram, de tocar as paredes,
os muros, as cercas e os objetos que eles tocaram e de, com isso,
procurar entender e transmitir suas motivações, seus
sonhos, seus medos, suas lutas e suas conquistas.
Em um
dia de muita chuva e na companhia de um historiador do calibre de
Dr. Martiniano e de um dos maiores conhecedores da geologia e da flora
do bioma Cerrado no Brasil, Binômino Costa Lima, o Meco, mergulhei
numa fantástica viagem ao coração do maior conflito
armado da Coluna Prestes no Brasil, que se deu em solo goiano.
Do local
conhecido como Combate, onde nos dias 29 e 30 de junho de 1925, morreram
dezenas de combatentes na luta entre as forças legalistas e
os membros da Coluna Prestes, os então chamados "revoltosos",
fui à sede da fazenda, onde, ao ver a mesma casa e o mesmo
curral vistos por Prestes, Juarez Távora, Siqueira Campos,
Djalma Dutra, João Alberto, Cordeiro de Farias, Klinger e tantos
outros combatentes anônimos, e pisar o mesmo solo pisado por
eles há muitos anos atrás, em um momento tão
definidor de nossa república, fiquei com um espanto que jamais
poderei reduzir, o mesmo espanto citado por Roland Barthes em seu
livro "A câmera clara": "Um dia, há
muito tempo, dei com uma fotografia do último irmão
de Napoleão, Jerônimo (1852). Eu me disse então,
com um espanto que jamais pude reduzir: vejo os olhos que viram o
Imperador! Vez ou outra eu falava desse espanto, mas como ninguém
parecia compartilhá-lo, nem mesmo compreendê-lo (a vida
é, assim, feita a golpes de pequenas solidões), eu o
esqueci."
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| Sede
da Fazenda Zeca Lopes, Perolandia, GO - 2012 |
Não
é da minha competência narrar os fatos históricos
ali ocorridos, pois cabe ao Dr. Maritiniano essa belíssima
tarefa. Mas, munido de minha curiosidade incansável sobre o
passado, pude fazer uma comparação entre o que ouvi
dos descendentes de Zeca Lopes, até hoje proprietários
da fazenda, com os livros que possuo da Coluna - A Coluna Prestes,
de Neill Maccaulay (ed. Difel, 1977), brazilianist norte-americano;
A Coluna Prestes, Marchas e Combates, de Lourenço Moreira Lima
(ed. Alfa-Omega, 1979), o escriba da coluna; e a biografia Prestes,
Lutas e Autocríticas, de Denis de Moraes e Francisco Viana
(ed. Vozes, 2ª edição, 1982).
E feliz
fiquei por encontrar confirmações de quase todas essas
histórias, dramas individuais e momentos terríveis:
assim foi com a história do cavalo de Prestes, que na saída
da Invernada para Caiapônia, empinou no escuro da noite e caiu
em um barranco, quase matando seu cavaleiro; com o oficial "revoltoso"
encarregado de ir com uma patrulha incendiar a ponte sobre o Rio Claro,
entre a atual Perolandia e Jataí, e que, após cumprir
sua tarefa, desertou mas ordenou a seus soldados que retornassem ao
QG da coluna, na Invernada; com o oficial legalista ou da coluna,
que se encontra enterrado no pequeno cemitério nos fundos da
sede da fazenda. Também encontrei algumas discordâncias,
como a data exata do combate: Macaulay diz que foram dois os combates,
um no dia 29 quando as tropas legalistas de Klinger alcançam
o destacamento de Djalma Dutra e trocam tiros e outro na madrugada
de 29 para 30 de junho, quando uma coluna comandada por Juarez, saindo
da sede da fazenda onde estavam acantonados, resolve atacar Klinger
no próprio local do combate do dia anterior, e então
se dá o grand-finale de uma tragédia, com dezenas de
mortos, principalmente entre os "revoltosos". Moreira Lima
também fala dos dois dias, acrescentando algumas informações:
que os destacamentos de João Alberto e Siqueira Campos aprestaram-se
e, saindo da sede da fazenda ainda no dia 29, foram combater Klinger
e que no dia 30 o combate continuou furiosamente, mas não cita
Juarez. Já os moradores atuais, herdeiros de Zeca Lopes, não
citam as duas datas, fixando-se no dia 29 de junho como o "grande"
dia, em função da memória oral da família.
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| O
campo da batalha, hoje. Perolandia, GO - 2012 |
Contrariamente
a essa mesma tradição oral, que ora se refere à
coluna como revoltosos e ora como comunistas, Prestes, em entrevista
aos autores Denis de Moraes e Francisco Viana (em "Prestes, Lutas
e Autocríticas"), diz que "Naquela época eu
nunca tinha ouvido falar de marxismo, nem de Lênin, muito menos
da revolução de outubro de 1917, na Rússia. Era
apenas um homem revoltado com a maneira pela qual se governava o país".
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| Cruzeiro
no local do combate - Perolandia, GO - 2012 |
Pois lá
na invernada está o Cruzeiro, erguido em homenagem aos mortos
no local do sangrento combate e que hoje, quase oculto pelo cerradão,
resiste ao tempo como testemunho e registro da história. E
na presença desse cruzeiro lamentei o descaso das autoridades
em relação aos nossos sítios históricos,
lamentei pelo passado heróico de nossa gente que escorre pelos
dedos e que, se não fosse pela determinação dos
historiadores, estaria perdido para sempre nas brumas do tempo.
Mas
tenho duas sugestões: que a Prefeitura de Perolandia, município
onde se encontra o Cruzeiro do combate, coloque ali uma placa comemorativa,
limpe o local, faça e mantenha acessos para facilitar as visitas
e coloque sinais indicativos de que ali, naquele lugar ermo, muito
do que é o Brasil de hoje foi decidido pelas armas pelos homens
dos dois lados, que acreditavam estar fazendo o melhor pelo Brasil.
E que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional, o IPHAN, tombe a sede da Fazenda Zeca Lopes, local sagrado
onde pousaram as tropas da coluna e de seus perseguidores e onde idéias
e ideais com certeza foram discutidas e levadas a cabo por seus integrantes
até a última das consequências.
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As
margaridas do campo
Tão
comuns e tão belas, as margaridas do campo ocupam os espaços
vazios do cerrado e de outros campos desse Brasil infinito, com suas
cores múltiplas, seus amarelos, vermelhos, roxos e azuis. As
margaridas do campo são como nossas esperanças, multicoloridas
e comuns, sonhadoras e pés-no-chão, pequeninas na sua
individualidade e imensas no seu conjunto.
Um jardim selvagem
de margaridas do campo tem muito mais beleza do que um jardim doméstico,
projetado, plantado e cultivado em um magnífico quintal gramado.
Pois este é fruto do planejamento, da organização,
do poder do desejo sobre o natural. E aquele é fruto do poder
da natureza sobre o poder do desejo, do poder da vida sobre o poder
pelo poder.
Quantas
vezes um quintal cheio de flores silvestres, grassado de plantas daninhas
e flores selvagens, tem o dom de encantar, com seu silêncio
primitivo, nossos olhos cansados do cotidiano artificializado? Quantas
vezes um quintal de subúrbio ou de uma fazenda em um mundo
cada vez mais distante nos lembra que a vida não é só
a vida que vivemos? Que a vida é muito mais do que a correria
do cotidiano, muito mais do que os parques urbanizados, podados, cortados,
desenhados, cuidados e superficializados que nossos olhos alcançam
todos os dias? Que a vida pode estar em um canto mal cuidado do universo,
abandonado à própria sorte e, no entanto, cheio do viço
e do vigor das seivas, caules, capins, flores sem regras, sem ordenamento,
sem planejamento?
Então,
aqui uma homenagem a todos os quintais, todos os recantos, todos os
matos, todas os sítios e lugares onde as ervas, daninhas ou
não, floridas ou não, com seus espantos e espaços
preenchidos com os verdes multi-tons do mundo natural ainda resistem,
persistem, existem.
E que
sejam assim para sempre, amém.
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| Margaridas
do campo - Varjão, GO - 2011 |
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| Margaridas
do campo - Varjão, GO - 2011 |
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| Margaridas
do campo - Varjão, GO - 2011 |
+
detalhes em Google+
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Fotografando o céu
que nos protege
Sobre
a fotografia do céu - que é um dos maiores encantamentos
do fotógrafo de preto e branco - e suas nuances, a sequencia
de fotos a seguir foi feita no mesmo local e praticamente no mesmo
instante. A primeira foi feita sem nenhum filtro ou tratamento:
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| Curral
em fazenda, Varjão, GO - 2011 |
Aqui, com o uso do filtro amarelo, há o aprofundamento das
nuvens, maiores detalhes, mais drama:
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| Curral
em fazenda, Varjão, GO - 2011 |
Com
o filtro laranja, menos drama no céu e mais textura nos objetos,
como a parede da casa e seu telhado:
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| Curral
em fazenda, Varjão, GO - 2011 |
E com o filtro vermelho, mais contraste, menos detalhes nas sombras:
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| Curral
em fazenda, Varjão, GO - 2011 |
Usar os filtros para fotografia em preto e branco, digital ou com
filme, é como colocar óculos escuros em dia de sol brilhante.
É adicionar conforto ao olhar e prazer no perspectiva de um
céu profundo e emblemático, como o do Planalto Central.
É usar os recursos da tecnologia para ajudar a nos emocionar
e a enxergar além da casa, do curral, do gado e da elevação
no horizonte: é parte de viver a vida com engajamento.
Detalhes
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Fotografar e resistir
Cinza.
Essa é a cor dominante nos campos do Planalto Central entre
julho e setembro. Cinza da fumaça das queimadas, da poeira
levantada após a terra colhida, do céu azul obliterado
pela secura do ar, pelo vento que circula sem a proteção
natural das árvores do cerrado, derrubadas para o plantio da
cana, da soja, do milho, do algodão...
De acordo com Aziz Ab’Sáber, em Os Domínios de
Natureza no Brasil – Potencialidades Paisagísticas, “...
os domínios dos chapadões recobertos por cerrados e
penetrados por florestas-galerias – de diversas composições
– constitui-se em um espaço físico ecológico
e biótico, de primeira ordem de grandeza, possuindo de 1,7
a 1,9 milhões de quilômetros quadrados de extensão”.
Segundo maior bioma do país, toda essa imensidão de
terra e riqueza biológica única encontra-se em franco
processo de extinção, ameaçada pela produção
agrícola sem controle. Desprotegido pela Constituição
Federal de 1988, o bioma Cerrado não foi contemplado como Patrimônio
Nacional, ficando indefeso quanto às condições
que assegurem a preservação do meio ambiente e do uso
dos recursos naturais.
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| Carvoeiros
queimando o cerrado - Chapadão do Céu, GO - 2006 |
Como
conseqüência, as chamadas Savana Arbórea Aberta,
Savana Parque e Savana Gramíneo-Lenhosa, típicas de
chapadões, praticamente não existem mais. As únicas
áreas que sobrevivem precariamente são as florestas
de galerias e matas ciliares, que acompanham o curso dos rios e constituem
áreas de preservação permanente, a chamada Savana
Arbórea Densa (o cerradão), que normalmente vivifica
em regiões de topografia mais acidentada, e e cerrado de altitude,
no topo das elevações, todos ainda imunes à tecnologia
das máquinas agrícolas. Mesmo assim essas áreas
são atacadas pelos carvoeiros, geralmente clandestinos, que
devastam os cerrados e cerradões para fornecimento de lenha
a siderúrgicas.
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| Lobo-guará
morto em rodovia - Serranópolis, GO - 2006 |
O desrespeito às leis de proteção ambiental e
a precária fiscalização fazem com que os 20%
de Reserva Legal obrigatórios para qualquer propriedade rural
sejam freqüentemente desprezados, tangendo para as rodovias,
para os campos lavrados e para os chamados cerradões espécimes
em risco de extinção, sujeitando-as à super-população
em pequenos espaços e aos atropelamentos e acidentes nas movimentadas
estradas que cortam o Planalto.
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| Cachorro-do-mato
morto em canavial - Goiatuba, GO 2009 |
Não concordamos com a opinião de que o fotógrafo
de paisagem e natureza não deve mostrar o que está errado,
que isso é trabalho para outro tipo de fotografia. Porque acreditamos
que o que se vê de destruição e degradação
no cotidiano das viagens ao campo e nas expedições,
deve ser mostrado ainda que em contexto apropriado. Como não
ajudar a denunciar o processo avassalador da produção
irresponsável e sem controle?
Não se trata de proibir a produção. Não
se trata de impedir que as máquinas de plantio e colheita cumpram
seu papel, desde que de maneira responsável. Trata-se de exigir
o cumprimento da lei da reserva legal, de denunciar o descaso dos
constituintes de 88 em relação ao Cerrado e de procurar
reverter esse quadro.
As imagens falam por si.
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Qual
é o problema?
Florestas,
cerrados, rios, ilhas, pequenas vilas e grandes metrópoles
são nosso habitat. E são para serem vividos com intensidade
por todo homem que um mínimo de sonho impele. Se um homem se
sente bem na urbe agitada, no vai-vem gigantesco de pessoas caminhando
em largas avenidas, no interior de um escritório gelado pelo
ar condicionado, esse homem tem o direito de lutar por isso. Se um
homem, que embaixo do céu coalhado de estrelas do Planalto
Central, ouve o canto da seriema e sonha com o fascínio das
luzes e carros da cidade grande, é de todo justo que lute pela
sua ida ao sonho. E se um homem, agoniado por essas mesmas luzes e
trânsito, enfastiado pelo conforto do ar condicionado e pelo
terno das pessoas que vivem nesse mundo de negócios, sonha
com o canto da seriema, com o céu de trilhões de visíveis
estrelas, com a prosa de fim de noite na pequena vila distante, esse
homem também tem todo o direito de conseguir isso. E é
justo que então lute!
Parece
fácil entender e viver esses desejos e vontades. Mas a angústia
que no peito se instala, com o confronto direto entre fatos e projetos
não é simples de ser vivida. Um técnico, que
na lida diária trafega entre circuitos eletrônicos, telas
com imagens mutantes, cabos de computador e problemas de lógica
matemática, pode se sentir feliz com isso e, interiormente,
se comprazer com seu intelecto. Mas, se no momento em que, cumprida
a tarefa diária, no caminho de casa se depara com a realidade
estridente do grande centro urbano ao mesmo tempo que sonha com a
realidade de cidades distantes, com a chuva forte batendo no rosto,
perdido em alguma plataforma no meio do oceano, com uma noite mágica
em um acampamento no coração de uma mata tropical, no
peito desse técnico estará instalado um confronto e
esse confronto não será simples.
E esse
técnico, reduzido ao simples homem que é, irá
sofrer com isso. Existe então um direito ao sonho e à
conquista, e esse direito cobra um preço muito alto para ser
vivenciado. E é desse preço, da agonia, dor e da angústia
que ele se traduz, que falo. Pois se o homem se deixa levar pela irrealização
de suas ilusões, ele é um sonhador que se acaba, sem
perceber, no meio do seu conformismo - e a intolerância um dia
o descobre e o esmaga. Se ele, por outro lado, se deixa ser perseguido
pelo seu sonho, não percebe os proveitos e alegrias que convivem
no dia a dia, e se se entrega à busca sem freios de uma obsessão.
O direito
ao sonho carrega um outro direito: o da escolha. A escolha que pode
fazer com que um dia um homem, para não cair no maniqueismo
do "posso não posso", prefira partir para suas cidades
distantes, seus acampamentos rudes no meio de outros homens, seus
momentos de chuva no rosto e paisagens longínquas ao alcance
dos olhos. E essa escolha pode permitir a esse homem que, um certo
dia, seu coração sinta a nostalgia do passado e o leve
de volta de onde um dia partiu. E nisso o direito à escolha
encerra sua grande virtude: a descoberta de que se pode voltar e se
arrepender sem se sentir prisioneiro de uma atitude errada. Porque
ele escolheu. E a beleza de múltiplos caminhos pode fazer com
que o homem vá aos seus paraísos distantes e, revigorado
pela certeza de que eles existem, volte ao seu cotidiano enxergando
nele brilhos anteriormente não vistos. E fazer isso quantas
vezes pedir seu coração, até que seu cotidiano
se transforme nesse próprio ir e vir.
E seu
sonho poderá estar sendo vivido.
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Cavalcante e a
Chapada dos Veadeiros
Acima
de Alto Paraíso, no nordeste do Estado de Goiás, existe
Cavalcante, fronteira norte do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros.
Além de território dos Kalungas,
uma comunidade remanescente dos quilombos, Cavalcante está
em uma região de beleza estonteante, onde os campos de altitude
e as formosas elevações tornam o horizonte uma paisagem
de magia e cinema.
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Campo
úmido na Chapada dos Veadeiros - Cavalcante, GO - Maio/08 |
No início de maio, lá fui, por convite de um grande
amigo, participar de um programa até então desconhecido
para mim: nada de veículos off-road, barulhentos e
pesadões. Apenas e simplesmente uma mulada, um passeio de dois
dias em lombo de mula, subindo aquelas altas serras por caminhos ancestrais,
rotas de tropeiros do século XVIII, atravessando campos limpos
e isolados, cruzando rios de águas transparentes.
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Atravessando
o Rio São Bartolomeu - Cavalcante, GO - Maio/08 |
Uma verdadeira trilha no sertão, inacessível aos automóveis,
que nos levou de volta ao passado, ao resgate do silêncio e
da contemplação, ao esforço físico recompensado
pelo encantamento com os campos e com as águas.
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Cachoeira
Véu de Noiva - Cavalcante, GO - Maio/08 |
Foram
dois dias na companhia do Zé Ronaldo, grande figura, contador
de histórias, organizador do passeio, provedor dos mantimentos
e proprietário das mulas e das tralhas necessárias para
a jornada. Dono de uma energia invejável, Zé Ronaldo
conduziu o grupo com o auxílio do Carlinhos e do João,
aquele um cavaleiro jovem e já experiente e este um simpático,
eficiente e bom de papo conhecedor de todas as trilhas e atalhos do
caminho.
E tinha
o Tutu, figurinha única, um Fox Paulistinha valente que acompanhou
a tropa todo o tempo, correndo através dos campos, subindo
e descendo as serras e nadando nos rios, trançando pelo meio
das mulas nas águas dos córregos, se divertindo, um
companheirão.
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Tutu
e o grupo - Cavalcante, GO - Maio/08 |
A Chapada
dos Veadeiros é um lugar único. Conhecê-la através
de Cavalcante também se torna uma experiência única.
Tem mais de uma centena e meia de cachoeiras. Tem uma boa infra-estrutura.
E tem o Zé Ronaldo com sua mulada. É imperdível.
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Seu
Célio
CARTA
AO AMIGO CLAUDINHO:
Claudio
(e a todos que, de uma forma ou de outra, conheceram seu Célio),
Seu
Célio teve uma grande participação na minha entrada
nesse mundo novo que é Goiás.
Lembro-me
de assistir, entre surprêso, encantado e divertido, ao primeiro
diálogo legítimo entre goianos que presenciei: seu pai,
Neném Prado, e seu tio, Célio, sentados na grama em
frente à sede da fazenda em que este trabalhava, lá
em Guapó, jogando conversa fora, naquele ritmo sertanejo, tão
lento e cantado quanto admirável.
|
Seu
Célio na fazenda - Guapó, GO - Junho/90 |
Lembro-me
de cavalgar com ele pelos pastos da fazenda, de "ajudá-lo"
a juntar as vacas de leite no fim do dia, de irmos, eu e tantos outros,
à Guapó só prá fazer um churrasco, beber
umas cervejinhas e tirar uma prosa com aquele veterano boiadeiro,
de fala mansa, olhos azuis e semblante bondoso.
Foi
lá, e com a participação dele, que Julia, minha
filha então bebezinha, viu as galinhas, as vacas e os cavalos
pela primeira vez na vida.
Eu lamento
muito. Se pudéssemos mudar a ordem natural das coisas, gente
como seu Célio não sofreria e não morreria.
Apresente
minha solidariedade a todos. E muito obrigado por me avisar.
André
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O bêbado e o cachorro
O Kid
é um bom amigo de toda a vida, o bom aluno onde eu fui o péssimo.
E também outro gênio da matemática, que me deu
explicações fundamentais na álgebra e geometria,
para eu enfrentar diversas situações difíceis
com os professores do velho Colégio Estadual Barão do
Rio Branco, lá em Santa Cruz, no subúrbio do Rio de
Janeiro. Professores como o Abio, de matemática.
E esses
eram tempos em que professores da estatura do Abio, de um Laplana,um
Feijó, uma Brigite, uma Olga, se deslocavam da Zona Sul do
Rio em trens suburbanos, encarando uma viagem de 2 horas de ida e
outro tanto de volta, para ir dar aula nos confins da cidade, em nome
da sobrevivência, é lógico, mas também
em nome do respeito ao ensino público. Tempos em que o ensino
público era de primeira qualidade e em que os pais faziam os
filhos se desdobrarem no “admissão” (a antiga 5ª
série do primário), para que conseguissem passar no
“vestibularzinho” dos ginásios (atuais 5ª
a 8ª série) estaduais.
Pois
pergunta-me o Kid, o velho e bom amigo de toda a vida, de uma foto
de um bêbado beijando cachorro e sobre o Moleque, cavalinho
que tive nos tempos daquele ginásio. Sobre o Moleque, estou
mesmo devendo escrever alguma coisa. Mas a foto do bêbado e
do cachorro não é minha.
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foto
Roberto Oliveira Melo Fº - Março/84 |
Foi feita com minha câmera, uma hoje velha Nikon Fm2, mas pelo
Betinho, amigo comum a nós dois, num carnaval de rua do começo
da década de 80, bem lá na pracinha do Morro da Fábrica
de Sabão. E o retratado é o Quinca, que não sei
por onde anda. Como também não sei por onde anda o cachorro,
mas como lá se vão mais de 20 anos, acredito, com firmeza,
que deve estar na terra dos pés juntos há algum tempo.
Cabe
ao Betinho responder pela foto, pelo Quinca e pelo cachorro, já
que esses dois privavam de sua relação: o primeiro por
ser parente dele, acho. E o segundo por ser de sua posse. Mas isso
é também outro acho.
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A
confraria dos caçulas
Hoje,
8 de fevereiro, meu único e primogênito irmão
faz 60 anos. Nossas cavalgadas sobre os cavalos de bambu, com cabresto
e freio de barbante na ponta, disparados no quintal da casa de subúrbio
dos anos 60, caçando índios e bandidos, estão
aqui bem no meu rastro, ainda na memória recente.
Nossas
gritarias e brigas, ranhetagens e teimosias, nossos tombos e ralados,
nossas diferenças, nossas igualdades, todas aqui, bem do meu
lado, como sefosse ontem à tardinha, depois da aula.
Eu faço
parte da confraria dos caçulas. Só quem é caçula
sabe o que significa isso: a proteção extra da mamãe,
a inveja dissimulada que sentimos da inteligência e “maturidade”
do mais velho, a indulgência do papai ...
Não
fui primogênito. Tenho mesmo satisfação de ter
sido privilegiado caçula. Mas se eu fosse “o mais velho”,
com certeza queria ser como meu bom e mais velho irmão. Meu
companheiro de jornada, gênio admirado, meu sabe-tudo da Física,
da Matemática e de todas as coisas que eu queria ser quando
pequeno.
Aquele
que dedicou quase 30 dias de suas férias na escola militar
para tirar ocaçula da miséria da repetência, numa
“segunda época” de ginásio, sentando comigo
e me dando aulas sistemáticas de Português e Matemática,
em um distante Janeiro. Que culminaram com minha gloriosa aprovação.
Meu
amado irmão, aqui vai minha modesta homenagem e o meu desejo
a você e a todos os “mais velhos” do seu calibre:
que seu caminho seja coroado por uma longa e saudável vida!
E parabéns prá você.
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A
bicicleta aro 22
Um amigo
aniversaria no dia de hoje, ele é também nascido naquela
que já foi a Cidade Maravilhosa, e me escreveu para falar da
idade e essas coisas que todo mundo começa a falar quando se
vai envelhecendo... E eu me lembrei do dia de Cosme e Damião,
que é hoje, 27 de setembro, dia de correr pelas ruas do Rio
e pedir doce e balinhas nos vizinhos que cumprem promessa por graças
supostamente alcançadas e distribuem saquinhos de guloseimas
e porcarias adocicadas para a molecada. E veio a saudade do meu tempo
de pé no chão, short sem camisa, bicicletinha aro 22
– meu pai dizia que era japonesa! - a voar pelas ruas pouco
movimentadas do meu bairro de infância, atrás das casas
que distribuíam os melhores pés-de-moleque, cocozinho
de rato, cocada, bolo de fubá, maria-mole! ...
Cadê
uma fotografia desse tempo, dessas ruas, dessa infância de Cosme
e Damião? Não tenho ... ou, parece que lembro de me
ver numa fotografia amarelada, eu de pé, barrigudinho, exatamente
de short e sem camisa, segurando uma bicicleta de aro 22, guidon reto,
é, parece ...
Cadê
uma fotografia da gente chegando em casa com os braços sem
tamanho para caber tanto saquinho de doce, esparramando pelo chão
os pirulitos e bananadas, com a mãe da gente sorrindo e pedindo
um pedacinho daquele doce de leite, daquela maria-mole? Cadê
uma fotografia da minha mãe naquele tempo, bonita como ninguém,
a me afagar com os olhinhos brilhantes e a provar um pedacinho de
cada gulodice de que gostava?
Cadê
a fotografia da rua Primeira, essa eu lembro, rua ainda sem asfalto,
onde a gente corria na poeira para a casa de seu Maninho mas já
com um olho na casa de d. Alzira, na hora que ela ia distribuir seus
doces? E das filas que a meninada fazia na frente das casas, desordenada,
aos gritos, empurra daqui, puxa dali, até que a porta se abria
e a gritaria virava algazarra e cada um pegando seu saquinho, mais
de um, até três, e depois a nova correria para a próxima
casa?
Cadê
a fotografia, cadê a boa infância, cadê a nossa
vidinha suburbana do bairro distante e tranqüilo, bem na capital
da república? E cadê minha bicicletinha japonesa aro
22?
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O domínio do existente
Tenho
pensado muito sobre o passar do tempo, sobre as referências
que se foram, desde a remota lembrança do bairro da infância,
que foi violentado pela explosão urbana, até o passado
mais recente, do cerrado que conheci há mais de 25 anos e que
hoje quase não existe mais, a savana que em um dia quente de
primavera, em 1978, ao viajar pelos planos de Goiás e Mato
Grosso, me deu a primeira materialização do significado
da palavra Pátria... e de como tudo mudou tão rapidamente.
|
Campo
limpo de savana - Mineiros, GO |
Tenho
pensado sobre o significado da fotografia em tudo isso, sua amarração
com o escoar da memória e da vida, o congelamento do momento
que nunca mais se repete... e acho que eu queria reproduzir aqui citações
de pensadores, filósofos, cientistas e outros, mas vem o medo
de ser pedante ou de ser superficial, de se igualar ao leitor de orelha
de livro, aquele que só conhece a sinopse, que só apreende
a síntese.
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Carnaval
de rua no bairro da infância - Rio, RJ - início
dos 80 |
Afinal,
por que essa ligação, fotografia e tempo e memória?
O que EU penso disso, o que EU penso da fotografia?
É
muito fácil a gente recorrer aos que já pensaram e,
preguiça maior, para que matutar sobre o que EU penso? Afinal
(lá vai uma citação), vejam só o que já
disse Wolfgang Leo Maar:
“A
dissolução da formação como experiência
formativa resulta no império do que se encontra formado,
na dominação do existente”. |
É
exatamente isso que acontece com a vitória da ideologia do
consumo sobre todas as outras - o domínio do que já
está pronto, o fetiche pela “coisa”, o fascínio
de (apenas) dominar a técnica do que já existe (câmeras
digitais e telefones celulares cada vez mais potentes, softwares que
tudo podem, que tudo fazem). É o domínio do instrumento
sobre a reflexão. Da eficácia no uso da ferramenta sobre
o pensamento. A dominação do existente.
Antes
de tentar um exercício mental mais exaustivo, eu posso deduzir
que – a priori - meu fascínio pela fotografia está
ligado à questão da paralisação do tempo.
À questão da eternidade. E isso me envereda por um caminho
existencial talvez acima das minhas capacidades intelectuais de interpretação,
ou, pelo menos, de decodificação disso a ponto de poder
passar para a palavra escrita.
E volto
ao “tenho pensado”. Tenho pensado muito que não
sou homem desse século. Que sou daqueles que ainda pensam na
2ª Guerra Mundial, uma das poucas vitórias sobre a barbárie.
Que ainda se arrepiam e enchem os olhos de lágrimas quando
vêem um documentário sobre a Guerra do Vietnam. Ou sobre
a Batalha do Chile. E que a geração do consumo, da multiplicidade
de informações com pobreza de conhecimento, nem sabe
o que foi isso. Não sabe e não se importa.
E uma
resposta possível ao meu pensar é que o registro fotográfico
pode ser meu último elo com uma realidade tão mutante
que um dia pode deixar de ser realidade.
Mas
só o fato de eu tentar definir sobre o que penso disso tudo,
já é uma vitória. E poderia, quem dera, ser o
começo da vitória da resistência sobre o consumo.
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Viagem
sem fim
Quem
nunca desejou estar numa estrada sem fim, contra um céu azul
que toca o horizonte lá na frente? E também ouvir uma
boa música nessa viagem? E olhar para os lados e apreciar a
paisagem? Mas ela passa sempre borrada, o que nos impele a só
olhar adiante. A só desejar o porvir e não ver o que
está ao lado.
Porque,
no dia a dia, nós viajamos é sobre o fio da navalha
que é o cotidiano. E viajamos com uma naturalidade que, vista
de fora, é espantosa. Como temos a capacidade de caminhar com
tanta perícia sobre uma superfície tão fina e
perigosa como um fio de navalha?
Então,
desejamos viajar sempre em nossa estrada sem fim, tentando olhar a
paisagem borrada... E essa viagem nos leva para frente, para o horizonte
que se confunde com o céu. Assim passamos os dias, curvados
sob o peso opressivo do cotidiano e, em alguns poucos momentos, nos
alegrando com as infinitas possibilidades que trazem os devaneios
da viagem na estrada sem fim.
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A
paisagem que passa borrada - cercania do Pq.das Emas- Mineiros,
GO - 1991 |
E enquanto
avançamos sobre o caminho fino como o fio da navalha que é
a realidade, alguma coisa nos impele a viajar pela estrada sem fim
do sonho, em direção a um céu azul profundo,
mas com a paisagem sempre borrada, bem do nosso lado. Ah, como deveríamos
ter a capacidade de congelar essa paisagem borrada, como numa fotografia
em alta velocidade!
O objetivo
maior de quem fotografa o espaço em que vive, esse vasto ateliê
de fotógrafo que é o mundo, é congelar a paisagem
para permitir ao olhar um instante de perplexidade, de maravilhamento
ou de horror. Um instante em que a gente se desvie dos devaneios e
sonhos com o futuro e enxergue, para o bem ou para o mal, o exato
momento em que estamos vivendo.
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O amor, a loucura
Ordem
do dia de Bonaparte (Napoleão), Primeiro Cônsul,
a sua guarda:
“O
granadeiro Gobain suicidou-se por amor: era aliás um
excelente sujeito. É o segundo acontecimento dessa
natureza que acontece à companhia desde um mês.
O Primeiro Cônsul ordena que seja posto na ordem da
guarda: que um soldado deve vencer a dor e a melancolia das
paixões; que há tanta coragem verdadeira em
sofrer com constância as penas da alma, quanto em ficar
firme sob a metralha de uma bateria ...”
...
Perspicácia de Bonaparte, assimilando o amor a uma
batalha, não – trivialmente – porque dois
parceiros aí se enfrentam, mas porque, cortante como
uma metralha, a rajada amorosa provoca ensurdecimento e medo:
crise, revulsão do corpo, loucura: aquele que se apaixona
à moda romântica conhece a experiência
da loucura ...
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O título
e o texto acima foram extraídos de “Roland Barthes por
Roland Barthes”, publicado no Brasil pela Editora Estação
Liberdade. Barthes, filósofo, sociólogo e escritor francês,
escreveu sobre a fotografia: é também autor de “A
câmara clara”, onde abre o livro, mais uma vez, falando
sobre Napoleão – e a fotografia:
Um
dia, há muito tempo, dei com uma fotografia do último
irmão de Napoleão, Jerônimo (1852). Eu me
disse então, com um espanto que jamais pude reduzir:
vejo os olhos que viram o Imperador! Vez ou outra eu falava
desse espanto, mas como ninguém parecia compartilhá-lo,
nem mesmo compreendê-lo (a vida é, assim, feita
a golpes de pequenas solidões), eu o esqueci. |
Aqui
compreendida, a paixão de Barthes pela fotografia é
aquela mesma que nos move: esses textos, com a tênue conexão
do mesmo personagem - Napoleão - ajudaram a mim na compreensão
do significado da fotografia, sua arte e sua magia, sua ligação
com a palavra escrita, sua capacidade de reproduzir ao infinito o
que só ocorreu uma vez - ali, no maravilhamento do autor com
a descoberta do olhar que "viu o Imperador"; acolá,
na reprodução simplesmente escrita da magnífica
Ordem do dia de Napoleão, tão magnífica que parece
formar uma imagem na nossa imaginação.
Ainda
bem que temos esse contraponto às superficialidades, ao consumo
rápido e sem reflexão, ao instrumentalismo que reduz
o saber à técnica, algo como “uma boa imagem diz
por si só”. Fotografia não é só
a imagem. Fotografia é a emoção, é o contato
com a realidade - como já ouví alhures. Pode ser amor
e pode ser loucura.
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A
loucura - Mineiros, GO - Janeiro/07 |
Uma boa imagem pode dizer muito por si só, mas não tudo.
Uma boa imagem é mais do que isso: sua capacidade de nos emocionar
é um convite à reflexão, ao questionamento, à
criação. É um caminho para o conhecimento.
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A beleza estava
ao lado
Eram
quase seis da tarde e eu corria contra o tempo. Saí da longa
e poeirenta estrada de terra, parte não asfaltada da BR-158,
na fronteira do Mato Grosso do Sul com o sudoeste de Goiás
e embiquei na GO-341, a rodovia que liga o Parque Nacional das Emas
à cidade de Mineiros.
Meu objetivo era chegar nos limites do parque ainda a tempo de pegar
a beleza do por do sol e, com um pouco de sorte, conseguir fotografar
seu cerrado, recanto natural intocado.
Não fui lá só para isso. Mas queria aproveitar
a oportunidade de estar próximo dali. Naquele dia, eu havia
passado em Serranópolis, em Goiás, e fotografado o Morro
da Bandeira.
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Acesso
ao Morro da Bandeira - Serranópolis, GO - Junho/07 |
Havia
passado pela cidade de Costa Rica, no MS, da qual guardei a boa arquitetura
de suas edificações, a pintura de bom gosto das lojas
e lojinhas de comércio na avenida principal e o cuidado de
seu povo com o calçamento, com os parques e os passeios públicos.
O que mostra que uma pequena cidade interiorana não precisa
ser empoeirada nem encardida, mesmo quando cercada pelos imensos campos
de lavoura.
E eu estava com pressa de chegar na longa cerca do Parque das Emas.
Acelerei o carro mas o crepúsculo chegou rápido, o negro
da noite começou a se espalhar pelo céu e só
ficou o dourado do sol, que fugia célere pelas bandas do oeste.
Tarde demais. Parei o carro para pegar ar, como se fosse eu que estivesse
correndo sobre as pernas...
Olhei para o parque, senti aquela imensa solidão que só
o planalto tem, com seu horizonte ao infinito e lamentei que nada
mais era perceptível para as lentes, nenhum detalhe do cerrado,
só sombras e insinuações de cupinzeiros, de arbustos,
só o pio agudo do gavião que procurava um pouso. Aí
então, olhei para o outro lado da rodovia. E vi o sol derrubado
e uma lavoura imensa de algodão, bem na minha frente. Corri
ao carro, peguei a câmera, o monopé, montei tudo e saí
fotografando. Deu para aproveitar uma foto.
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Campo
de Algodão no crepúsculo - Mineiros, GO - Junho/07 |
A beleza
estava ao lado, mesmo que na lavoura que a tudo devora.
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A
caminho do paraíso
Depois
de Brasília, indo pela BR-020, quando se pega a GO-118 e se
põe a proa do carro para o norte, deixa-se para trás
o tumulto e se entra em verdadeiro caminho para o paraíso.
Alto Paraíso é, mais do que reserva da bioesfera, patrimônio
paisagístico do país.
A
360º, tendo a cidade como ponto central de um círculo
imaginário, para qualquer direção que o viajante
vá, há uma paisagem fantástica, com incrível
poder de sedução.
Essas fotos das estradinhas de terra foram feitas próximas
ao caminho para o Moinho.
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Caminhos
- Alto Paraíso, GO - Maio/07 |
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Caminhos
- Alto Paraíso, GO - Maio/07 |
Curioso, nesse mesmo final de maio resolvi ir até o Jardim Zen,
referenciado em guias de turismo, próximo ao ponto culminante
de Goiás (1676 m de altitude). O caminho é pela GO-118
... e mais bela ainda fica a paisagem. Estamos na direção
de Cavalcante e Teresina de Goiás e, apesar da placa anunciar
o Paralelo 14, no meu GPS a marca era de 13º 58’, com margem
de erro de 7 metros, o que daria o paralelo a uns 2 km ao sul dali (alguém
errou ...):
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Jardim
Zen - Alto Paraíso, GO - Maio/07 |
Moreira
Lima, escriba da Coluna Prestes, que passou na região em 1924/1925,
descreve em “A coluna Prestes – marchas e combates”:
“...
Ali, onde não há altitudes superiores a dois mil metros,
as montanhas não impressionam pela grandeza acabrunhadora de
sua massa. Elas se aprumam acima das colinas de formas suaves, dos
Gerais larguíssimos e dos seus incomparáveis rios de
águas verde-claro, como velhos templos pagãos ali erguidos,
há séculos, para o culto de ignotas divindades ...
... Dos píncaros das suas serras, ou dos cimos das suas belas
colinas, alongávamos a vista para o horizonte, embevecidos
pela contemplação dos panoramas empolgantes que se desdobravam
para todos os lados, esquecendo-nos por momentos dos inimigos que
nos rondavam a distância. Até os mais rudes soldados
manifestavam o seu entusiasmo diante daquelas paisagens indescritíveis
...”
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Os
gerais e as colinas - Alto Paraíso, GO |
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Devo uma para o
Aduildo
Hoje vou falar um pouco do planalto, um pouco mais de uma serra e muito
de uma família sertaneja, a família do Aduildo.
Quem viaja no sudoeste de Goiás pela BR-364, a caminho do Mato
Grosso e antes de chegar na cidade de Mineiros, desce uma serra belíssima,
logo depois do Posto 71. Desce porque o planalto goiano (e de todo o
centro-oeste do Brasil) tem a característica singular de deixar
a gente viajar numa chapada onde se enxerga o céu tocando a terra
e, de repente, mergulha em declives quase abruptos, que permitem ao
viajante ver, da estrada, as elevações abaixo dele, em
vista panorâmica.