Roland Barthes e a fotografia: o amor e a loucura

Ordem do dia de Bonaparte (Napoleão), Primeiro Cônsul, a sua guarda:

“O granadeiro Gobain suicidou-se por amor: era aliás um excelente sujeito. É o segundo acontecimento dessa natureza que acontece à companhia desde um mês. O Primeiro Cônsul ordena que seja posto na ordem da guarda: que um soldado deve vencer a dor e a melancolia das paixões; que há tanta coragem verdadeira em sofrer com constância as penas da alma, quanto em ficar firme sob a metralha de uma bateria …”

… Perspicácia de Bonaparte, assimilando o amor a uma batalha, não – trivialmente – porque dois parceiros aí se enfrentam, mas porque, cortante como uma metralha, a rajada amorosa provoca ensurdecimento e medo: crise, revulsão do corpo, loucura: aquele que se apaixona à moda romântica conhece a experiência da loucura …

O título e o texto acima foram extraídos de “Roland Barthes por Roland Barthes”, publicado no Brasil pela Editora Estação Liberdade. Barthes, filósofo, sociólogo e escritor francês, escreveu sobre a fotografia: é também autor de “A câmara clara”, onde abre o livro, mais uma vez, falando sobre Napoleão – e a fotografia:

Um dia, há muito tempo, dei com uma fotografia do último irmão de Napoleão, Jerônimo (1852). Eu me disse então, com um espanto que jamais pude reduzir: vejo os olhos que viram o Imperador! Vez ou outra eu falava desse espanto, mas como ninguém parecia compartilhá-lo, nem mesmo compreendê-lo (a vida é, assim, feita a golpes de pequenas solidões), eu o esqueci.

Aqui compreendida, a paixão de Barthes pela fotografia é aquela mesma que nos move: estes textos, com a tênue conexão do mesmo personagem – Napoleão – ajudaram a mim na compreensão do significado da fotografia, sua arte e sua magia, sua ligação com a palavra escrita, sua capacidade de reproduzir ao infinito o que só ocorreu uma vez – ali, no maravilhamento do autor com a descoberta do olhar que “viu o Imperador”; acolá, na reprodução simplesmente escrita da magnífica Ordem do dia de Napoleão, tão magnífica que parece formar uma imagem na nossa imaginação.

Ainda bem que temos esse contraponto às superficialidades, ao consumo rápido e sem reflexão, ao instrumentalismo que reduz o saber à técnica, algo como “uma boa imagem diz por si só”. Fotografia não é só a imagem. Fotografia é a emoção, é o contato com a realidade. Pode ser amor e pode ser loucura.

blog09
A loucura – Mineiros, GO


Uma boa imagem pode dizer muito por si só, mas não tudo. Uma boa imagem é mais do que isso: sua capacidade de nos emocionar é um convite à reflexão, ao questionamento, à criação. É um caminho para o conhecimento.