"Sobre fotografia, com mais ou menos poesia".

 

O Parque das Emas, a caça e o dilema das Unidades de Conservação


As duas imagens abaixo foram feitas no entorno do Parque Nacional das Emas: a do Lobo-guará (Chrysocyon brachyurus), atropelado em julho de 2015, na rodovia GO-341, próximo à portaria do Jacuba, noroeste do Parque; e a da Anta (Tapirus terrestris), morta a tiros em maio de 2016, no Córrego do Ranchinho, Reserva do Tamanduá, em Chapadão do Céu, distante apenas 1 km da cerca sul do Parque e da portaria do Bandeira.

Lobo guará morto

Há entre as duas uma diferença importante: o Lobo-guará é uma vítima habitual nas rodovias que cortam seu habitat natural. Pressionados pela ocupação humana no entorno das unidades de conservação e mesmo longe delas, os bichos cruzam constantemente o asfalto perigoso e milhares morrem atropelados. Falta de fiscalização rigorosa dos órgãos competentes – Polícia Rodoviária Federal ou Polícia Militar Rodoviária Estadual – da velocidade nas rodovias do seu entorno.

Anta morta no rio

Já a morte da Anta a tiros representa uma renovada ameaça à fauna, principalmente próximo às Unidades de Conservação. Renovada porque o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) autorizou há alguns anos o abate do Javali, espécie invasora, agressiva e territorialista, que vem causando prejuízos significativos às lavouras e se reproduz vigorosamente. Com essa autorização, proliferaram os caçadores armados com todo o tipo de armas de fogo que, além de não respeitarem a regulamentação da caça – cadastrar-se no Ibama, ter o registro de sua arma regularizado junto à Polícia Federal etc – atiram em veados, tatus, queixadas, catetos e todo o tipo de fauna que cruza seu caminho. Certos da impunidade, gerada pela mais absoluta falta de fiscalização por parte do Ibama e das polícias locais, a atividade de caça expandiu-se em níveis alarmantes. É comum, hoje, principalmente no entorno e algumas vezes dentro do Parque das Emas, caçadores irresponsáveis abaterem a tiros exemplares preservados por lei, como a anta do Córrego do Ranchinho, sem nada que os gestores locais do Parque possam fazer, pela permanente escassez de recursos.

A curto prazo, talvez a solução seja a revogação da autorização de caça ao Javali, enquanto os técnicos do Ibama, conjuntamente com a comunidade afetada pela perda econômica nas lavouras pela atividade do animal, pensam em outra maneira de limitar suas ações. Esterilização das fêmeas seria um bom caminho, atraindo os bandos para cercados construídos próximos às suas atividades e alimentado-os com milho injetado por esterilizantes, por exemplo.

A continuar como está, brevemente só teremos a lamentar a perda significativa de exemplares emblemáticos da fauna brasileira, sem uma mínima chance de recuperação.

Viagem sem fim

Paisagem

Quase todos já desejamos viajar em uma estrada sem fim, sob um céu azul que toca o horizonte lá na frente, ouvindo uma boa música e olhando para os lados para apreciar a paisagem. Mas ela passa sempre borrada, o que nos impele a só olhar adiante, a só desejar o porvir e a não ver o que está ao lado.

No dia a dia nós viajamos sobre o fio da navalha que é o cotidiano. E viajamos com uma naturalidade que, vista de fora, é espantosa. Como temos a capacidade de caminhar com tanta perícia sobre uma superfície tão fina, cortante e perigosa como um fio de navalha?

Talvez por isso desejamos viajar sempre em nossa estrada sem fim, tentando olhar a paisagem borrada. E essa viagem nos leva para frente, para o horizonte que se confunde com o céu. Assim passamos os dias, curvados sob o peso opressivo do cotidiano e, em alguns momentos, nos alegrando com as infinitas possibilidades que trazem os devaneios da viagem na estrada sem fim.

Enquanto avançamos sobre o caminho fino como o fio da navalha que é a realidade, alguma coisa nos impele a viajar pela estrada sem fim do sonho, em direção a um céu azul profundo mas com a paisagem sempre borrada, bem do nosso lado. Como deveríamos ter a capacidade de congelar essa paisagem borrada, como numa fotografia em alta velocidade!

O objetivo maior de quem fotografa o espaço em que vive, esse vasto ateliê de fotógrafo que é o mundo, é congelar a paisagem para permitir ao olhar um instante de perplexidade, de maravilhamento ou de horror. Um instante em que nos desviemos dos devaneios e sonhos com o futuro e enxerguemos, para o bem ou para o mal, o exato momento em que vivemos.

Workshop – Narrativas visuais na National Geographic Brasil

Workshop Joao Rosa

foto de Cecília Araújo

Minha apresentação do ensaio Cerrado em Cinzas durante a oficina sobre narrativas visuais na National Geographic Brasil, ministrada pelo fotógrafo João Marcos Rosa e realizada no último final de semana na WA Imagem, em Goiânia.

Contar uma história em fotografias não é simples e foi por isso que João Rosa veio até nós para transmitir seu conhecimento e experiência sobre o tema. Turma aplicada e resultados muito bons.

Perfeitamente assimétrico

web Image stenotip

O exercício prazeroso de fotografar com filme.

Sem idoso ou idosa na janela, sem criança sentada nos degraus, sem cachorro passeando pela calçada. Sem clichês, em resumo.

Só a imagem de uma ruína que certamente já foi um sonho.

Santa Cruz de Goiás, junho de 2015, filme 120.